Quem de nós já não gastou algum tempo pensando como nossa cidade poderia ser melhor? Encontro pessoas que falam com brilho nos olhos de iniciativas fantásticas que viram pela televisão. Fantásticas e também possíveis, mas aparentam não dar certo somente em nosso chão. Por que será?
Penso que falta uma só iniciativa e depois dela tudo mais daria certo. Na verdade, é uma iniciativa que veio faltando ao longo dos anos. Falta quem ponha em prática uma escola de cidadania, ou várias! Mas a escola em si já não é o berço da cidadania? É o que a lei preconiza. Entre a lei e o cotidiano, porém, há uma muralha fortificada que em Riachão do Jacuípe parece mais intransponível do que em qualquer outro lugar.
Temos excelentes educadores, projetos e prêmios conquistados por estabelecimentos como o Colégio Maria Dagmar de Miranda. Tivemos uma Maria Dagmar de Miranda, enfim, devotada como ela só. (Até me lembro que, já em final de carreira, em 1996, Professora Dagmar me chamou no Educandário Santana, porque haviam sugerido meu nome para substituir uma professora de Língua Portuguesa, que precisou deixar a função. Na ocasião, a mestra me olhou nos olhos e perguntou: “Como é o seu português?” Eu ponderei um pouco e disse: “Razoável... Nem tão bom, nem tão ruim.” Então, Professora Dagmar me olhou nos olhos e exigiu: “Pois, eu quero ótimo!”)
Recordo este episódio, primeiro para oferecer aos leitores um pouco da memória de nossos mestres, pouco ou nada transmitida às novas gerações, mas é oportuno salientar que não basta ensinar bem o vernáculo. Precisamos fomentar tanto quanto possível em nossas crianças, jovens ou velhos, o gosto pela cidadania. Esta é a segunda razão por que evoco o episódio com a Professora Dagmar. Ela tem todas as virtudes e méritos de uma educadora de sua época, dentro das condições que lhe ofertaram para o exercício do magistério, mas volto a advertir: Não basta o vernáculo, nem são suficientes as boas maneiras, talvez até superdimensionados na época da Professora Dagmar.
Foi a própria Faculdade de Letras que me fez descobrir quanto somos todos preconceituosos em relação aos falares de nossa região. Dizer que alguém “fala errado, escreve errado” é um hábito certo para quem aprendeu bem a gramática, mas não observou direito as lições de cidadania, se é que um dia as teve. A esse mal costume Marcos Bagno chama de Preconceito Linguístico. É o título de um de seus livros mais conhecidos. Recomendo a leitura.
Então, se a escola tradicional não dá conta de formar cidadãos, aqui ou em qualquer lugar, penso que carecemos de iniciativas inovadoras: Escolas de cidadania! Por que não? É possível que a idéia não seja tão original assim, mas convenhamos que para Riachão do Jacuípe não me parece haver uma saída melhor. O projeto Cidadania em Ação, empreendido pelo MOC nos anos 90, foi prontamente abraçado por jovens que são hoje alguns dos melhores cidadãos que esta cidade tem.
Vamos imaginar uma eleição municipal depois de implantadas as escolas de cidadania... Compradores de voto sem procura nenhuma no mercado. Políticos conhecidíssimos totalmente fora de moda. Respeitados, é claro, como pessoas humanas que são, com suas famílias, seus amigos, mas absolutamente fora de moda, todos em completo desuso... Sim, desuso, porque eles usam e são usados mesmo, onde não há cidadania. Então as pessoas diriam umas às outras, sorrindo: “Lembra como era a Câmara de Vereadores? E aquelas gestões públicas antiquadas que nós tínhamos? Lembra que todos se agarravam à Prefeitura para ganhar um dinheirinho e ter um padrão de vida decente e por isso defendiam com unhas e dentes o indefensável? Como eram pequenos e mesquinhos nossos representantes! O que aconteceu com esta cidade?” Por fim, alguém diria: “Simples. Passamos a aprender cidadania como quem aprende as letras, os números ou códigos de trânsito. Agora sabemos como caminhar seguros. As pessoas não elegem mais oportunistas nem embarcam em projetos políticos por mera paixão. O resultado só poderia ser positivo!”
Quanto tempo falta para este diálogo deixar de ser uma doce fantasia? Bem, depende de mim, de você, de quem pudermos convencer.
Sem nossas escolas de cidadania sobram intrigas, incompreensão, boatos, brigas. Sobra esta aura, enfim, de mal estar, mau humor, e boa parte das pessoas ditas influentes na sociedade contribuem tristemente para a perpetuação de uma espécie de cultura menor, feita de muita apelação sensual, drogas ilícitas e muito álcool em festas populares caras, pagas pelo contribuinte.
Mas, quem construirá escolas de cidadania? Essa pode ser uma preocupação descabida, pois os espaços estão aí. São as garagens, os pequenos prédios abandonados ou ociosos e – por que não – a própria casa do trabalhador, do jovem, do desempregado. Só precisamos de recursos humanos e organização. Mãos à obra!