Rui Barbosa não merece tamanha desonra. Antonio Ferrão Moniz de Aragão não é digno de tal ofensa. A justificativa dos alemães detidos, Wulf Pepran e Friedhelm Moritz, no primeiros dias de fevereiro por trocarem de roupa no saguão do Aeroporto Internacional de Salvador é incisiva: explicaram o ato afirmando acreditarem que tirar a roupa na Bahia era permitido.
A ofensa, a desonra não são feitas pelos alemães; fazem-nas os baianos por produzirem uma imagem em nada condizente com a grandeza e o brilho de Rui Barbosa e Moniz de Aragão. Não enveredemos pela reação patriótica, já que “o patriotismo é o último refúgio de um patife”. E usemos do olhar daqueles que estão longe para lançar luzes sobre o que estava escondido; pois quem longe está pode ver aquilo que o cotidiano e a proximidade costumam esconder.
O fato incontestável é que ambos são desvios da regra, como outros que existiram e, porventura, continuarão a existir. A índole dos baianos pouco assemelha-se ao espírito de tais homens. Ambos são resultados apenas de suas respectivas individualidades; das suas grandezas, das quais tanto retiraram que recompensaram a escassez de sua terra.
Se Rui Barbosa muito amiúde sentava-se à sua “solitária banca de estudo à uma ou às duas da antemanhã”, pouca disposição possuem os baianos para o labor, sobretudo o intelectual. Conta Rui Barbosa que sendo ainda muito jovem, ao acordar durante o alvorecer para dedicar-se às suas lucubrações, ordenava-lhe o pai que volver-se ao leito, ao que o jovem Rui fingia obedecer, retornando em seguida à “solitária banca de estudos”.
Com esse desvelo que atirava-se ao estudos, Rui Barbosa logrou a condição de “mais poderosa máquina cerebral de nosso país”, como assim o definiu Joaquim Nabuco, seu companheiro na luta abolicionista. Se assim procedeu Rui e tanto conquistou, como agem os baianos em geral, se tão pouco alcançaram, dando a impressão de que pouco diferenciam-se dos índios que os europeus aqui encontraram nos idos anos do século XV e XVI, que andavam nus?
Muniz de Aragão, por sua vez, homem de vasta cultura, foi pioneiro na produção intelectual brasileira. O filho do Barão de Itapororoca ainda criança foi estudar na Europa, onde sentiu quão distante estava o espírito baiano da aplicação intelectual. Conta-nos em seu diário a imensa dificuldade que enfrentou para adaptar-se à vida européia, culpando por seus pesares a educação recebida na Bahia, “que o tornara preguiçoso, tinha uma verdadeira antipatia pelos estudos...”
Mas Muniz de Aragão distanciou-se de tal forma do espírito baiano que o havia dominado na meninice a ponto de adquirir um insaciável hábito de leitura, que reza a lenda, tornou-se tão forte que certa feita um incêndio estava a consumir-lhe a propriedade, no engenho do Recôncavo, e como encontrava-se lendo, assim continuou durante todo o infortúnio, e mais, irritava-se com os que interrompiam-lhe a leitura para avisar-lhe do incidente.
Vistamos o fato, similar àquele que trajou Rui Barbosa e Moniz de Aragão.