Embora as aparências e os discursos da maioria dos chefes de estado presentes durante as quatro grandes cúpulas da América e Caribe realizadas entre os dias 15 e 17 de dezembro passado em Costa do Sauípe fosse de contentamento, a realidade não mostrou isso. Por traz de cada sorriso havia o forte interesse econômico, isso sem falar na disputa pelo espaço político tanto no aspecto regional quanto no internacional. Dessa forma, aparentemente não havia nenhuma insatisfação entre o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e o equatoriano Rafael Correa por conta do calote da dívida com o BNDES anunciada por este último, tampouco entre o venezuelano Hugo Chávez e o colombiano Álvaro Uribe (que enviou representante) por conta das querelas fronteiriças.
Assim, sob o prisma de nação mais forte ou do chefe de estado mais influente do bloco latino-americano e do Caribe se percebeu uma surda disputa nos bastidores das cúpulas, principalmente entre os presidentes Lula e Hugo Chávez. Gestor da maior economia e maior área territorial da região, o brasileiro destacou-se sobre os seus pares na condição de anfitrião do encontro e pela sua grande facilidade de comunicação. Por sua vez, embora não possua a mesma importância do Brasil, a Venezuela é um dos maiores produtores de petróleo do mundo, o que possibilita ao seu presidente ter assento em várias partes do planeta. Chávez pode não ter a mesma popularidade de Lula, mas o seu estilo polêmico o torna uma das grandes referências das Américas, principalmente depois que o cubano Fidel Castro saiu de cena. Em Sauípe, não foi diferente.
Isso posto, o grande contraponto entre Lula e Chávez pareceu ser justamente os Estados Unidos, com o qual Brasil e Venezuela têm mantido relações diferentes nos últimos anos. Durante o encontro, enquanto o brasileiro adotou uma política diplomática de boas relações com os EUA, embora os dois países tenham batido de frente em algumas questões comerciais recentemente, o venezuelano adotou uma linha de confronto, representando a antítese e a resistência ao pregar um discurso hostil de antiamericanismo em relação aos interesses da América do Sul e do Caribe.
Embora os dois líderes se considerem amigos e publicamente joguem confetes um no outro, diplomaticamente Brasil e Venezuela estão em posição de confronto. Não tanto pelos dois presidentes, mas pelas relações que perpassam pelas esferas de outros poderes. A não entrada da Venezuela no Mercosul, por exemplo, que depende de votação do Senado brasileiro, é um fato que ainda irrita a Chávez. Certamente em retaliação a esse episódio, ele boicotou a 36ª Cúpula do Mercosul, talvez a principal das quatro cúpulas realizadas em Sauípe, preferindo enviar um ministro como representante.
As diferenças entre os dois líderes ficaram delineadas também durante as entrevistas concedidas à imprensa após o encerramento das cúpulas. Enquanto Chávez mostrou-se cético sobre a possibilidade de uma melhor relação com os Estados Unidos com a posse de Barack Obama, o presidente Lula preferiu ser mais cauteloso. “Estou esperançoso de que mude”, declarou o brasileiro ante um Chávez desconfiado e irônico.
Contudo, vaidades à parte, em pelo menos algumas questões a maioria dos países que participaram das Cúpulas em Costa do Sauípe tiveram ressonância entre si. Um pouco pelo grito de soberania deles sobre os Estados Unidos, mas, de forma mais acentuada, pelo fim do embargo da potência do Norte em relação a Cuba e, dentro desse contexto, pela entrada deste no Grupo do Rio. Com o inimigo distante, essa era a posição mais confortável para a unanimidade, embora o Uruguai tenha destoado um pouco ao minimizar a culpabilidade dos EUA da carga de problemas ali apresentados.
Feridas regionais foram expostas
Mesmo acostumado a receber grandes eventos, o Complexo de Costa do Sauípe, localizado no município de Mata de São João, a 75 km de Salvador, viveu três dias sem precedentes em sua história com a realização das quatro grandes cúpulas com a presença de 33 chefes de estado da América Latina e do Caribe. Além dos políticos, a estrutura teve a presença de mais de 600 jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas de todo o mundo, 2 mil seguranças, 600 delegados oficiais, 150 diplomatas, quase 5 mil pessoas credenciadas, além de uma infra-estrutura de primeiro mundo para as autoridades e um centro de imprensa com computadores, telões, telefones, internet etc e tal.
Além disso, a presença do Exército e seus tanques de guerra, da Policia Federal e de tantas outras instituições, quebraram a rotina em toda a área do Litoral Norte. Durante os três dias aconteceram quatro grandes cúpulas para discutir os problemas e propostas comuns para a região das Américas: a Cúpula da América Latina e do Caribe (Calc), a Cúpula do Mercosul, a Cúpula Extraordinária da Unasul, e a Cúpula Extraordinária do Grupo do Rio. Somente do governo baiano, os custos estimados com o evento foram da ordem de R$ 1,5 milhão. Contudo, se politicamente as decisões tomadas pelos chefes de estado contribuiram para tirar Cuba do isolamento com a sua histórica entrada no Grupo do Rio, no aspecto econômico pouco se avançou.
Já no primeiro dia, Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai não conseguiram concluir as negociações para eliminar a dupla cobrança da TEC (Tarifa Externa Comum), imposto de importação em vigor nos países do Mercosul incidente sobre certos produtos de fora do bloco.
Depois, as discussões para a criação de um agente alternativo aos organismos financeiros internacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) não foram adiante. Tanto que a presidente da Argentina, Cistina Kirchner, reclamou que as cúpulas deveriam passar das discussões à prática.
A questão sobre a dívida externa dos países participantes também eclodiu com bastante força por ser considerada pela maioria dos representantes como a responsável pela fome na região. Contudo, quando o tema chegou ao quintal do vizinho, ele não prosperou. Dessa forma, Rafael Correa (Equador) defendeu na frente de um Lula silencioso que “antes, o sistema priorizava o capital sobre o ser humano, mas agora é preciso priorizar o ser humano sobre o capital”, num claro recado de que não iria pagar a dívida do seu país junto ao BNDES. Da mesma forma Fernando Lugo (Paraguai) revelou que pouco mudaria as convicções que tem sobre os poblemas relacionados à energia gerada em Itaipu, que serve ao seu país e ao Brasil.
De qualquer forma, os 33 chefes de estado, além de promoverem a entrada de Cuba no Grupo do Rio, trabalharam pela participação da Ilha na Cúpula das Américas e discutiram a criação da União da América Latina e do Caribe, uma espécie de OEA, com a inclusão do país de Fidel. De certeza, ficaram as mensagens de um discuso anteamericano, a luta pela autonomia dos países latinos em relação aos EUA e o fim do embargo a Cuba. Porém, permaneceram as divegências entre Hugo Chávez e Álvaro Uribe, assim como a guerra surda pela vaga de estrela da região entre Lula e Chávez.
EUA isolados: Obama é a esperança
Essa foi a primeira vez que os representantes dos países da América Latina e Caribe se reuniram sem a presença dos Estados Unidos, Canadá e da Europa. A ausência do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, principal aliado dos interesses norte-amaricanos no Sul, também pôde ser visto como o pouco caso que a maioria dos chefes de estado deram à potência do Norte. Em sentido contrário, as quatro cúpulas marcaram a volta de Cuba aos encontros regionais, agora representada pelo presidente Raúl Castro, numa clara mensagem de que o país de Fidel não está mais sozinho.
Como testemunho do isolamento dos EUA, numa edição na semana do evento o jornal New York Times publicou que “Washington (EUA) foi desprezado na cúpula do Brasil”. De fato, a tônica dos discursos da maioria dos chefes de estado presentes em Costa do Sauípe foi sobre a atual crise econômica mundial, mas o fim do embargo a Cuba e o discurso de antiamericanismo também foram marcantes. Visto como um “demônio”, ou o principal responsável pela crise econômica que afeta o mundo, os Estados Unidos foram criticados duramente. “Os Estados Unidos viraram saco de pancada durante a conferência de três dias realizada na Bahia", reforçou o jornal.
Considerado o maior adversário dos Estados Unidos no encontro de Sauipe, o venezuelano Hugo Chávez, além de responsabilizar este país pela atual crise econômica mundial, decretou o fim do capitalismo e pregou o socialismo bolivariano na América Latina e região do Caribe. Na mesma linha, o boliviano Evo Morales propôs que fosse dado um prazo para que os EUA suspendessem o embargo a Cuba, sob pena de os 33 chefes de estado presentes fechassem as embaixadas de Washington em seus países.
Mas o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, considerado um “aliado”, disse que o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, que assume no dia 20 de janeiro, merecia uma chance para mostrar a sua política para a região. Durante entrevista à imprensa no encerramento das cúpulas, Lula reafirmou a sua posição cautelosa: “O Obama ainda vai tomar posse. A nossa expectativa é esperar a sua proposta para a América Latina, Cuba e Oriente Médio. É este conjunto de fatores que vai mostrar se houve ou não mudança de comportamento dos Estados Unidos sobre o mundo”.
Contudo, os outros presidentes se mantiveram céticos sobre a relação que os Estados Unidos terão com os países do Sul e do Caribe a partir da posse de Obama.. “A América Latina tem situações similares entre todos os países, num sistema de dependência”, advertiu Fernando Lugo, do Paraguai. Assim, ficou claro que a ausência dos EUA em Sauípe só fez piorar a sua relação com os países do Eixo Sul e do Caribe, o que obriga um esforço maior de Obama para reverter este quadro.
(*) Evandro Matos esteve em Costa do Sauipe durante as quatro grande cúpulas como enviado especial para o jornal Tribuna da Bahia e o Blog www.Janiolopo.com.br