Relançamento: A pedra do Reino de Ariano Suassuna
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Armando_Solari_Almeida
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Enviada: Sáb, 12 Mar 2005 11:34 pm
Assunto: Relançamento: A pedra do Reino de Ariano Suassuna
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Certamente todos conhecem esse escritor principalmente por "O Auto Da Compadecida" (eu mesmo assisti o seriado, o filme e li o livro hehe), mas acho legal chamar a atenção tb para outras obras dele. Ainda naum li esse livro, mas pela resenha me pareceu bastante interessante e não poderia passar em branco esse relançamento, fica aí como dica de leitura. Segue a reportagem:


O gênio da raça

Ruy Espinheira Filho

Segundo Carlos Drummond de Andrade, “não é qualquer vida que gera obra desse calibre.” Hermilo Borba Filho escreveu: “Não sou lá muito de comparações, mas se me perguntassem com que livro eu o compararia, não teria hesitação: com A divina comédia.” Outros – inclusive o autor deste artigo – o aproximam do mais célebre romance de todos os tempos: Dom Quixote.

No Brasil, a tendência é compará-lo a Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, como o faz Maximiano Campos, que vê as duas obras como “romances superiores, desses livros que transcendem o mero enredo e fabulação e nos fazem ficar tentados a chamá-los de epopéias”.

Já para Rachel de Queiroz, a comparação com Guimarães Rosa não é muito feliz, porque este foi um “criador de um idioma novo, às vezes belíssimo – mas evidentemente manufaturado por ele em seu laboratório”, enquanto no outro “a língua existe, existiu sempre”, pois se trata da “sintaxe tradicional, poético-coloquial-declamatória-literária” de uma gente e um mundo: o nordestino e o Nordeste.

Assim se tem falado do Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, de Ariano Suassuna. Depois de 20 anos fora das livrarias (só mesmo num País como o nosso...), retorna agora em quinta edição.

Obra monumental, tanto em tamanho (754 págs.) quanto em essência, traz-nos um Brasil mítico-poético-epopéico-real como não encontramos em nenhuma outra obra de ficção ou poesia. Poesia sim, porque, se A pedra do Reino é um romance, também é uma espécie de poema da civilização e do imaginário nordestinos.

O narrador da história (ou, mais exatamente, das muitas histórias que se entrelaçam) é D. Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, também conhecido como D. Pedro IV, cognominado “O Decifrador”, Rei do Quinto Império e do Quinto Naipe, Profeta da Igreja Católico-Sertaneja e pretendente ao trono do Império do Brasil.

Descendente dos que causaram e sofreram os famosos episódios ocorridos na sagrada Pedra do Reino, ele conta e reconta velhos fatos, aventuras e desaventuras, onde surgem demandas novelosas, heróicas e místicas, profecias e milagres, cavaleiros diabólicos e visagens aterrorizantes como a Moça Caetana (a morte) e a Besta Bruzacã, de mistura com espantoso conhecimento de genealogia da nobreza européia, brasileira e – especialmente – sertaneja.

Impossível abordar, em tão pouco espaço, um mundo tão vasto como o que se desvela no Romance da pedra do Reino, que é – segundo Suassuna – uma epopéia, mas uma epopéia que não se limita a heróis saídos de famílias poderosas, estendendo o conceito de Herói às famílias trágicas e épicas da “aristocracia do povo”. E de maneira tal que, para irmos às palavras de Idelette Muzart Fonseca dos Santos (que defendeu, na Sorbonne, tese intitulada Le roman de Chevalerie et son Interprétation par um écrivain Brésilien Contemporain: A Pedra do Reino de Ariano Suassuna), as imagens heráldicas, a estrutura cavaleiresca, a técnica romanesca e a estética da memória se unem “permitindo a mudança de visão e o deslocamento para um mais-além pictórico e literário mais significativo e mais verdadeiro do que a realidade.”

Na verdade, o romance de Ariano Suassuna é ainda uma obra em progresso, pois a terceira parte está em elaboração. A segunda parte, que narra a infância de Quaderna e a Guerra do Sertão Paraibano, entre outras demandas novelosas, intitulada O rei degolado – ao sol da Onça Caetana, foi publicada, pela mesma editora, em 1977. A terceira parte da obra, ainda inédita, se chama Sinésio, o Alumioso, e é definida pelo autor como “mais mítica, de amor e marinha”.

Ler a ficção de Ariano Suassuna é encetar uma aventura maravilhosa. Maravilhosa porque, de fato, é uma demanda repleta de maravilhas. Um amigo do autor, Murilo Guimarães, ao ler O rei degolado, observou que estava sendo erguida uma espécie de Mitologia brasileira – o que dava origem ao “romance mítico”.

Suassuna concorda, dizendo que isto ele vem procurando desde o início – destacando seu gosto pela palavra Mito, que tem sentidos vários como fábula, alegoria, coisa sem existência real, coisa em que não se crê, quimera, utopia, coisa incompreensível, enigma, entre outros.

D. Pedro Dinis Ferreira-Quaderna tem um sonho maior: ocupar o cargo de “Gênio Máximo da Humanidade”. Não chegando a tanto, ficaria satisfeito com o título de “Gênio da Raça”. Eu, depois de reler o Romance da Pedra do Reino e O rei degolado, acho que D. Dinis deve mesmo tentar ser o “Gênio Máximo da Humanidade”, pois o “Gênio da Raça” já tem um nome: Ariano Suassuna.


Ruy Espinheira Filho é escritor, ensaista, professor da Ufba e membro da Academia de Letras da Bahia

Intérprete do Nordeste

Quarenta anos depois de sua última visita à Bahia, o escritor e dramaturgo paraibano Ariano Suassuna voltou a Salvador, em agosto de 2002, para receber o Prêmio Nacional Jorge Amado de Literatura e Artes, lançado naquele ano pelo governo do Estado, via Secretaria da Cultura e Turismo.

O autor havia sido indicado pelo Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), União Brasileira de Escritores – Seção Pernambuco e pela Universidade Salgado de Oliveira, daquele Estado, concorrendo na fase final com nove escritores, entre eles Fernando Sabino e os baianos João Ubaldo Ribeiro e Hélio Pólvora.

Em seu discurso de agradecimento, proferido no IGHB, Suassuna disse estar emocionado com a premiação por ter sido amigo de Jorge Amado, de quem recebeu forte influência literária através dos livros Terras do Sem Fim e Os Velhos Marinheiros, além de grande estímulo para divulgação de sua obra.

Apesar de a peça O Auto da Compadecida ser o seu trabalho mais famoso, principalmente devido às versões para o cinema e a televisão, Ariano Suassuna considera sua obra mais importante o épico Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, ao qual define como um “romance armorial-popular brasileiro”. O autor começou a escrevê-lo em 1958 e só o concluiu em 1970.

Desde a estréia em 1947, aos 20 anos, com a peça Uma mulher vestida de sol, Ariano Suassuna elegeu o Nordeste como seu universo ficcional, tornando-se, ao longo da vida, um defensor intransigente da cultura popular que constitui seu “mundo mítico”, no qual assimila e reelabora histórias e casos contados, em prosa e verso, bem como as formas da narrativa oral e da poesia sertaneja desde suas origens no romanceiro ibérico.

“Só comparo Suassuna, no Brasil, a dois sujeitos: Villa-Lobos e Portinari. Neles, a força do artista obra o milagre da integração do material popular com o material erudito, juntando lembrança, tradição e vivência com o toque pessoal de originalidade e improvisação”, disse certa vez Rachel de Queiroz, a propósito do autor, seu colega na Academia Brasileira de Letras.

COERÊNCIA – Ariano Vilar Suassuna nasceu no dia 16 de junho de 1927, na cidade de Nossa Senhora das Neves, então capital da Paraíba, filho de João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna e Rita de Cássia Dantas Villar Suassuna. Tinha pouco mais de três anos quando seu pai, que governara o Estado, entre 1924 e 1928, foi morto no Rio de Janeiro em conseqüência da cruenta luta política que se desencadara na Paraíba, após o assassinato, no Recife, em 26 de julho de 1930, do governador João Pessoa de Albuquerque. O autor do crime, João Dantas, era primo de dona Rita, mãe de Ariano. O assassinato de João Pessoa seria um dos pretextos para a Revolução de 1930.

Após a morte do marido, dona Rita transferiu-se com os nove filhos para o sertão paraibano, indo instalar-se na Fazenda Acahuan, de propriedade da família, e depois na vila de Taperoá, onde Ariano fez os estudos primários. Em 1942, a família muda-se para o Recife e Ariano vai estudar no Ginásio Pernambucano e depois no Colégio Oswaldo Cruz. Quatro anos mais tarde ingressa na Faculdade de Direito do Recife, onde conhece um grupo de escritores, atores, poetas, romancistas e pessoas interessadas em arte e literatura, entre os quais, Hermilo Borba Filho, com o qual funda o Teatro de Estudantes de Pernambuco (TEP). Concluiu o curso de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 1950.

Durante 32 anos, Ariano Suassuna foi professor da Universidade Federal de Pernambuco, onde ensinou Estética e Teoria do Teatro, Literatura Brasileira e História da Cultura Brasileira. Um dos melhores frutos dessa experiência é o livro Iniciação à Estética, publicado inicialmente em 1973, que agora está sendo relançado. No início dos anos 70 lançou o Movimento Armorial, com o concerto Três séculos de música nordestina, na Igreja de São Pedro dos Clérigos e uma exposição de gravura, pintura e escultura, enfatizando uma preocupação com a cultura popular que seria sua marca também como secretário da Educação e Cultura do Recife, cargo que exerceu de 1975 a 1978.

Em agosto de 1989, foi eleito por aclamação para a Academia Brasileira de Letras, tomando posse em maio de 1990, na cadeira número 32, que pertenceu ao escritor Genolino Amado. Figuram entre suas principais obras: Uma mulher vestida de sol (1947); O desertor de Princesa (1948); Os homens de barro (1949, inédita); Auto de João da Cruz (1949); O arco desabado (1952); Auto da Compadecida (1955); O santo e a porca (1957); O casamento suspeitoso (1957); A pena e a lei (1959); Farsa da boa preguiça (1960); A caseira e a Catarina (1962); Romance d’a Pedra do Reino e o príncipe de Sangue do Vai-e-Volta (1971) e Iniciação à estética (1973). (Da Redação)

Leia Mais:

Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta

Ariano Suassuna
José Olympio
754 págs.
R$ 69

Iniciação à Estética

Ariano Suassuna
José Olympio
398 págs.
R$ 39,50
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rey
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Registrado em: Apr 29, 2003
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Localização: Onde o vento faz a curva...
Enviada: Ter, 15 Mar 2005 1:17 pm
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Enquanto isso na SALA DE JUSTIÇA...


Esse paraibano... pra mim é um dos melhores dramaturgo e romancista do mundo...

Eu já vi "O Auto da Compadecida" umas 100 vezes...rsssssssss. sem exagero algum.
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