Armando_Solari_Almeida
Moderador


Registrado em: Aug 28, 2004 Mensagens: 662 Localização: Nos mais remotos confins do Universo
|
Enviada: Ter, 08 Fev 2005 9:12 pm
Assunto: que zona eh essa? agora o IRÃ?
|
|
|
"EIXO DO MAL"
Possível surgimento de uma teocracia islâmica com bombas atômicas põe Washington numa encruzilhada
Irã é o verdadeiro pesadelo americano
RUPERT CORNWELL
DO "INDEPENDENT"
Os sinais de alerta estão alinhados, como estrelas no céu apontando para um grande evento futuro. Vozes começam a se elevar no Congresso, e intensificam-se os contatos com grupos de exilados de um certo país do Oriente Médio, aquele que está em questão. Mais uma vez o presidente George W. Bush já está avisando que não exclui o recurso à força para assegurar que um regime ligado ao terrorismo não ganhe acesso a armas de destruição em massa.
E, chamando ainda mais a atenção, uma revista altamente respeitada publicou uma matéria detalhada -e que foi apenas parcialmente desmentida- afirmando que unidades das forças especiais americanas já estão realizando missões em terra no interior do país em questão, identificando locais que poderão ser alvejados.
Todas essas coisas já aconteceram em meados de 2002. Na época, Washington se preparava para demolir Saddam Hussein. Desta vez, porém, a mira dos EUA está voltada contra outro alvo.
Dois anos após invadir o Iraque, estarão os EUA se preparando para ir à guerra contra o Irã?
A questão mal foi mencionada na campanha eleitoral, mas, desde que Bush derrotou John Kerry, em novembro, tornou-se claro que o Irã será um desafio crucial de seu segundo mandato. Ao mesmo tempo em que os responsáveis políticos dos EUA se esforçam para encontrar um caminho de saída do Iraque, eles nutrem uma obsessão pelo Irã.
É o Irã, e não o Iraque, o assunto que provavelmente dominará a visita de Bush a Bruxelas em fevereiro. Ainda mais do que o Iraque, o Irã possui o potencial de dividir tanto a administração Bush quanto a aliança atlântica.
""Apenas covardes param em Bagdá", gabavam-se os neoconservadores no momento de sua glória maior, quando as forças americanas expulsaram Saddam do poder, numa campanha militar deslumbrante. Para quê nos contentarmos com Bagdá, diziam. Por que não carregar a tocha da liberdade e da democracia até o outro lado da fronteira, até Teerã, aquele outro membro fundador do ""eixo do mal"?
Entretanto, como agora admitem até os neoconservadores, ligeiramente atemorizados, o Irã é qualitativa e quantitativamente muito, muito distinto do Iraque.
Para começo de conversa, o Irã, diferentemente do Iraque, é uma ameaça concreta em matérias de armas de destruição em massa. As armas químicas e biológicas de Saddam, sem falar em seu programa nuclear, acabaram provando não passar de frutos da imaginação dos serviços de inteligência ocidentais. Praticamente ninguém duvida de que o Irã queira a bomba. A maioria dos especialistas acredita que, dentro de três anos, Teerã poderá tê-la.
Em segundo lugar, diferentemente do Iraque de Saddam, o regime iraniano possui vínculos comprovados com diversos grupos terroristas do Oriente Médio, senão com a própria Al Qaeda. Ele está explicitamente comprometido com a destruição de Israel e possui ambições muito mais plausíveis do que Saddam jamais teve de tornar-se a potência dominante no golfo Pérsico, que abriga dois terços das reservas petrolíferas do planeta.
Em terceiro lugar, o Irã, na condição de inimigo potencial, ocupa escala totalmente diferente do Iraque.
Sua população é quase três vezes maior do que a iraquiana, e seu potencial de causar danos é insuperável. E o Irã é um país xiita, que tem vínculos estreitos com a maioria xiita do Iraque, sobre a qual exerce influência potencialmente tumultuosa.
Por todos esses motivos, os EUA até agora se abstiveram de tomar qualquer atitude. No momento, Washington, com a ajuda dos europeus, está aplicando uma política de ""policial bonzinho e policial malvado".
Reino Unido, França e Alemanha estão liderando um esforço da UE para negociar um grande acordo com o Irã, oferecendo ao país assistência econômica, tecnológica e diplomática em troca de ""garantias objetivas" de que Teerã não possui ambições nucleares militares.
Entretanto, o tira malvado está enviando mensagem diferente a Teerã, dizendo que, se as negociações fracassarem, a força é uma opção que será considerada, sim.
Enquanto isso, os sinais já conhecidos que precedem uma ""mudança de regime" já se tornam visíveis. O Pentágono está trabalhando com um grupo de exilados iranianos radicados no Iraque.
Nos EUA, os exilados iranianos vêm formando organizações próprias, a mais conhecida das quais é a ADI, ou ""Aliança para a Democracia no Irã", que quer que a população iraniana realize um referendo para restaurar a monarquia, derrubada em 1979, sob a égide do filho do xá Reva Pahlavi (que vive na Virgínia, num subúrbio de Washington).
Nesta semana saiu um artigo na revista ""New Yorker" assinado por Seymour Hersh, o repórter que denunciou o escândalo da prisão de Abu Ghraib. Hersh afirma que comandos americanos já realizaram missões no interior do Irã, enviados por um Pentágono que não está se deixando constranger pelas dificuldades que enfrenta no Iraque e que, segundo Hersh, venceu sua prolongada disputa com a CIA pelo controle das operações das forças especiais americanas. O Pentágono não desmentiu a matéria.
Exatamente como fizeram pouco antes da Guerra do Iraque, os neoconservadores, muito bem representados no Pentágono, vêm exigindo ações contra o Irã. Na visão deles, a iniciativa da União Européia vai fracassar -assim como previam o fracasso das inspeções da ONU no Iraque do pré-guerra. Desse ponto em diante, porém, os cenários divergem.
A reação diplomática enfurecida que se seguiria a um ataque ao Irã superaria de longe a polêmica suscitada em torno do Iraque. Se os EUA entrassem no Irã, o fariam virtualmente sozinhos, sem contar com qualquer vestígio da chamada ""coalizão dos países dispostos" que tirou Saddam do poder. Nem mesmo o Reino Unido os acompanhariam. O único aliado possível dos EUA seria Israel -único país que jamais poderia entrar em guerra com o Iraque-, o que prejudicaria ainda mais, se é que isso é possível, a posição dos EUA no mundo islâmico.
O próprio ataque militar colocaria os EUA diante de problemas de difícil solução. É verdade que hoje existem forças americanas baseadas no Afeganistão e Iraque. Mas elas são poucas em relação às necessidades, e os 150 mil homens no Iraque (um terço dos quais reservistas e membros da Guarda Nacional) estão mais do que ocupados com a insurgência nesse país. Se fosse atacado, o Irã faria todo o possível para causar problemas no Iraque e redobrar seu apoio a grupos terroristas.
Existe uma segunda opção: lançar ataques aéreos menores ou ataques de comandos especiais, mirando especificamente instalações nucleares suspeitas e/ou instalações militares chaves. Tais ataques poderiam ser conduzidos com a ajuda de Israel, que já avisou que não vai tolerar um Irã com a bomba. O que fica implícito é que Tel Aviv estaria disposto a avançar por conta própria, com (ou, possivelmente, até mesmo sem) a benção tácita dos EUA.
Mas mesmo um ataque em escala menor seria repleto de dificuldades. As instalações nucleares iranianas estão espalhadas pelo país e, ao que consta, são bem protegidas. Não se trataria de uma repetição de 1981, quando jatos israelenses destruíram o reator de Saddam em Ozirak, atrasando suas ambições nucleares em dez anos. E será que a humilhação de um ataque realmente faria a população iraniana se levantar para derrubar os odiados mulás, como acreditam os neoconservadores americanos? Tudo indica que essa previsão vai se somar à longa lista de previsões americanas erradas sobre o Irã.
Mas os EUA terão de resolver a questão do Irã de uma maneira ou de outra. O coração da administração americana talvez diga ""atacar", mas sua cabeça, ao que parece, está dizendo ""negociar". Desta vez é possível que, em lugar do porrete, seja preciso aplicar incentivos: uma oferta ao Irã que somaria assistência econômica da Europa com, por parte dos EUA, reconhecimento diplomático e um relaxamento das sanções. Em última análise, porém, é possível que Washington não tenha outra escolha senão conviver com seu pior pesadelo: uma teocracia islâmica munida de armas nucleares.
--------------------------------------------------------------------------------
Tradução de Clara Allain
|
|