Pedro Lima, medalhista de ouro nos jogos pan-americanos do Rio Janeiro 2007, conversou com o Riachao.com. Passando alguns dias na cidade de Riachão do Jacuípe para rever amigos e familiares, nesta última semana, Pedro Lima falou com Anderson, Magno, Juninho e Ramon Keily de forma bem simples e com humildade, na casa de parentes. Falou sobre sua infância na cidade, das dificuldades para chegar onde está, da polêmica envolvendo seu nome e um pedido de R$ 10 mil para vir a cidade, como foi os últimos momentos no fim da luta e sobre o futuro: “Eu penso em disputar as Olimpíadas e depois virar profissional, mas pra isso eu preciso de recurso”.
Leia a entrevista:
Riachao.com - Para situar as pessoas, você poderia nos contar um pouco onde você foi criado aqui, com quantos anos saiu, quem é sua família...
Pedro Lima - Eu fui criado praticamente aqui no Ranchinho. Eu saí daqui tinha entre 9 e 12 anos. Minha família é Josene, Jociélio, Cristiane, Thomas, Cristina e Guileane. Todos fazem parte da minha vida e graças a Deus me deram força e coragem que me possibilitaram trazer essa medalha para o Brasil e para Riachão.
Riachao.com - Está se sentindo bem aqui? Conseguiu rever todo mundo?
Riachao.com - Quais lembranças você tem de sua infância aqui? (Não vale dizer que me batia não...)
Pedro Lima - Você sabe que nunca lhe bati (risos). Eu tive muitos amigos aqui, você sabe, participou de minha infância aqui. A gente ficava até tarde na rua brincando, jogando bola, a gente ia no rio tomar banho, nossas mães chegavam, pegavam as roupas, e a gente voltava pra casa nu (risos). Foi uma infância que graças a Deus nunca vou esquecer. É como falei para vocês, nunca esqueci de Riachão, sempre disse que nasci aqui. Mas quem me ajudou realmente, aliás, ajudou não, deu uma força durante um mês, foi a prefeitura de Salvador, junto com a Petrobahia. Dória também nos ajudou com a equipe da Champion (nome da academia que ele treina), não cobrou nada pra treinar a gente. A prefeitura de Riachão nunca me ajudou, ta me conhecendo agora depois do ouro, depois do Pan, mas antes eu já lutava. Se você for em minha casa vai ver muitos diplomas, de República Dominicana, Porto Rico e outros países. Mas vieram me conhecer agora, e esse foi o momento que eu pedi ajuda de custo.
Riachao.com - O que mais mudou em sua vida com a conquista do ouro no Pan?
Pedro Lima - Por enquanto até agora nada. Não tenho patrocínio, não sei se a prefeitura vai nos ajudar ainda, o que mudou pra mim foi ser reconhecido pelo público humilde e principalmente pelas crianças. Tão esperando por mim lá
Riachao.com - Quais eram suas expectativas antes dos jogos? Você se via na final e ganhando o ouro?
Pedro Lima - Eu estava preparado. O treinamento foi muito forte na Bahia, mesmo nas dificuldades. A gente brigou para não ficar
Riachao.com - E para as Olimpíadas de Pequim, qual sua expectativa?
Pedro Lima - Estou recebendo muitas propostas dos Estados Unidos para ir para o profissional. E se eu passar para o profissional eu não posso disputar as Olimpíadas. Eu quero disputar as Olimpíadas, eu tenho este sonho. Só que o boxe é aqui e agora. Você está vendo esta mídia que está tendo em cima de mim? Se eu perco uma competição eu sou esquecido. Infelizmente no boxe temos que dar resultado. Então é isso: eu estou sem patrocínio, não tenho proposta nenhum para continuar no amador e sem que eu queira, vou ser obrigado a passar para o profissional. As propostas para ir para o profissional são melhores do que ficar no amador.
Riachao.com - Então depois das Olimpíadas você pensa em passar para profissional?
Pedro Lima - Com certeza. Eu penso em disputar as Olimpíadas e depois virar profissional, mas pra isso eu preciso de recurso. Imagine que eu não encontre nada agora, que fui campeão pan-americano, e depois disputo as Olimpíadas e perco? Eu fico esquecido, meu contrato no profissional será bem baixo.
Riachao.com - Alguém já não lhe fez a proposta de ficar até as Olimpíadas e depois ir para o profissional?
Pedro Lima - Seria bom se existisse um empresário assim. Só que isso não existe no boxe. Eles querem o momento e esse é o momento que estou vivendo. Ninguém me conhecia, vocês não me conheciam, o prefeito não me conhecia. Foi isso que ele pensou: eu vinha para cá, tirava foto com ele, fazia a campanha dele de político e ele não me ajudava
Riachao.com - Por que você não deu sua resposta também? Por que não procurou a rádio?
Pedro Lima - Eu não vim aqui para essas coisas. Vim ver minha família, fui na roça, não vim para cá ver imprensa. O prefeito me colocou como mercenário, disse que para eu vir aqui eu pedi R$ 10 mil, me dói isso. Eu fiquei muito sentido por isso, mas não estou com raiva dele não, ele está certo, eu realmente pedi R$ 10 mil, mas não da forma que ele explicou. Foi em forma de ajuda para ir para o mundial, nós precisamos disso.
Riachao.com - Você poderia nos dizer o que passou na sua cabeça quando o americano virou no último minuto? E como você ainda conseguiu virar nos últimos segundos?
Pedro Lima - Ninguém tirava minha atenção, apesar da gritaria. Eu estava concentrando em mim e no meu treinador Dória, no que ele dizia. Quando eu olhei para ele que ele disse “ta um abaixo”, é, pensei, “vou fazer meu boxe”. Não pensei assim: “não tenho nada a perder”, se não você acaba tomando outros golpes. Fui tranqüilo e consegui empatar e mais pro final consegui passar 1 ponto. Quando eu atingi o americano e olhei para o Dória, ele me disse: “ta um acima”. Puxei ele, segurei ele, o que ele fez comigo eu fiz com ele. Foi aí que ele ficou retado, reclamou com o juiz e tudo. Como eles são a potência, a América, ele menosprezou a mim. Eu sou brasileiro, humilde, pobre – pobre no modo de falar né –, pobre pelo fato do país dele ser rico. Ele me menosprezou e achou que iria me ganhar fácil. Eu assisti lutas dele, todos os golpes dele eu sabia. Assisti ele lutando 6 vezes na concentração. Uma hora antes de ir pra luta eu tinha assistido. Tinha na memória o que iria fazer.
Riachao.com - O que falta para as Olimpíadas então?
Pedro Lima - O Mundial para os Estados Unidos já é uma classificatória. Depois mais três pré-olímpicos. Não sei nem em quais países é. Se eu não me classificar em um mundial, tem o pré-olímpico, e depois outro e outro. Por isso pedimos ajuda.
Riachao.com - Atualmente você tem algum patrocinador?
Pedro Lima - Até agora eu não tenho patrocinador, não recebi proposta. A única proposta que achei foi para passar para profissional. Patrocínio eu não tenho, ninguém me patrocina, só as pessoas que já me ajudaram antes, como o Dória. Essas pessoas que me ajudaram, que tiveram comigo, essas sim eu tiraria foto sem falar nada.
Riachao.com - Como você entrou na academia, quem te indicou e como foi?
Pedro Lima - Eu tinha 14 anos e quem me levou para lá foi Raimundo Oliveira, campeão brasileiro.
Riachao.com - Qual mensagem você passa para o povo jacuipense?
Pedro Lima - Que o prefeito olhe mais para o esporte, nos ajude, que isso seja passageiro e que ele mude de idéia, tente ajudar a gente da forma que ele puder e vamos agradecer. Precisamos de ajuda. Não vim para cá pedir dinheiro e nem nada disso. Vim para cá ver minha família. Então mandar essa mensagem para que nos ajude. Não é apenas eu, têm outras pessoas que vêm atrás de mim. Com esse exemplo, ele vai tirar muitas crianças da ruas, das drogas, fazer algo pela criançada de Riachão. Que ele possa ao menos juntar uma verba e fazer um Centro Olímpico aqui em Riachão, colocar todas as modalidades, que daqui pode sair muitos campeões. Fazer com essas crianças que vivem nas drogas, na violência, matando, roubando, se vendo no esporte, com certeza mudará.
Riachao.com - E para o povo jacuipense que tanto lhe apoiou?
Pedro Lima - Um abraço a todos que torceram por mim e um beijo para as mulheres né (risos). Muito obrigado a todos que torceram por mim.
Riachao.com - A equipe Riachao.com agradece pela entrevista e lhe deseja uma boa sorte.
Pedro Lima - Agradeço pela oportunidade.