Entrevista com o PT


Após a vitória na disputa do governo da Bahia e da continuação do Presidente Lula, o PT de Riachão do Jacuípe expõe sua visão sobre a o cenário político jacuipense. Em entrevista com três dos seus principais representantes, o PT mostra sua intenção de lançar um candidato para as eleições de 2008, comenta a situação atual do município e fala abertamente sobre o rompimento com o atual Prefeito.


Entrevista realizada em dezembro de 2006.

Riachao.com - Qual avaliação vocês fazem dos resultados da última eleição? Para o partido.

Avelange – A avaliação é positiva para o partido. Conseguiu crescer bastante e sempre dentro daquilo que o partido defendeu. Apesar de toda crise que enfrentamos, o partido mostra nas urnas que o brasileiro não tem se cansado do PT como a mídia tentou pregar. Os brasileiros sabiam que apesar do que aconteceu, o PT continua sendo PT.

Riachao.com - A vitória de Wagner foi uma surpresa ou já se comentava dentro do PT?

Raimundo - Bem, ganhar em primeiro turno foi uma surpresa para nós também. Mas ganhar as eleições nas avaliações que nós fazíamos aqui, não era nenhuma surpresa. Porque nós fazíamos um paralelo com relação aos números que Wagner obteve na eleição passada. Quando as pesquisas davam Wagner com 19,5% e ele chegou a 38%, com 7 prefeitos apoiando sua candidatura. Nessa eleição a base de aliados aumentou. Para se ter uma idéia, Wagner chegou às urnas com mais de 70 prefeitos apoiando-o. A gente entendia que Wagner ganharia as eleições, mas entendíamos também que ganharia em segundo turno.

Riachao.com - Estando com o governo do Estado, faz com que vocês fiquem numa posição favorável para negociar. Algum grupo já procurou vocês? O que vocês pensam sobre isso?

Raimundo - Não tivemos nenhum convite, nada formal. Há sempre aqueles convites informais, um bate papo sem muita seriedade: “o partido agora poderia compor com a gente”. Mas não ouve nenhum convite formal. O partido entende, como foi falado aqui na reunião, que não é em função do fato de ter ganhado a eleição. A gente tem um projeto para Riachão que nasceu em 2000 com a mina candidatura, interrompemos em 2004 quando tivemos que apoiar outros candidatos, mas o partido tem um projeto e esse projeto tem como fundamento lançar candidatura. Com a eleição de Wagner, se o governo dele der certo, o partido tende a crescer em Riachão e com chances de ir para as urnas em 2008 para disputar a eleição.

Riachao.comEntão é unânime em todo o partido que vocês terão um candidato?

Raimundo – Teremos candidato.

Riachao.comIsso passa por um bom governo de Wagner ou isso só seria mais um elemento a favor?

Raimundo - Necessariamente não. Um bom governo Wagner vai nos fortalecer, agora, a nossa candidatura a princípio não depende disso. Não foi pelo fato de Wagner ter sido eleito. Era um projeto nosso. E não vai depender do fracasso ou do sucesso dele. Vamos torcer pelo sucesso dele e isso vai nos fortalecer, agora, o partido terá candidato, em tese, independente de um mal governo Wagner. Mas eu acredito que será um grande governo.

Riachao.comQual relação o partido tem com o atual Prefeito?

Teodomiro – A relação do partido com o Prefeito é a seguinte: O partido nunca teve esse problema com relação ao Prefeito. O PT de Riachão do Jacuípe teve o consenso de dar uma assistência ao povo jacuipense. E não assistência a Prefeito e nem a Governador. A ideologia do partido é assistir ao povo. Então nós sentimos uma vontade, tanto eu quanto Avelange, e também o partido em si, de está buscando coisa melhor para o povo de Riachão do Jacuípe.

Riachao.comQual foi o real motivo do rompimento?

Raimundo - O governo Laurinho fugiu aos princípios que o partido defende. O governo baseado na ética, na transparência, um governo contra o nepotismo. O PT prega que o governo Laurinho encarnou o nepotismo junto a sua família. Não cumpriu na verdade as promessas básicas de campanha, que seria o governo participativo de fato. Não há participação no governo. O nosso partido como partido da base aliada que tinha secretario, tem vereador, não era convidado para participar das discussões. O partido não era valorizado no governo. Tínhamos secretários que não tinha autonomia para nada. Então o partido entendeu que houveram erros cometidos no ponto de vista administrativo e principalmente político, uma vez que o governo foi eleito com a base de esquerda ao carlismo e logo depois já estava aliado a um governador carlista. Isso feriu nossos princípios, nossos acordos. Como você condena o carlismo e está com um governador do carlismo? Ele estava sendo incoerente com o nosso discurso. Ficamos no governo um ano e sete meses porque nós éramos o elo de ligação entre o governo municipal e o governo federal na busca de recursos, conseguindo recursos importantes para Riachão. Quando conseguimos os recursos, entendemos que estava na hora de entregar os cargos e romper com os vínculos políticos com o Prefeito.

Teodomiro – Quando se fala em rompimento, fala-se de rompimento com o Prefeito. O PT não rompeu com o Prefeito. O PT rompeu com a forma de administração do Prefeito. O Prefeito é Laurinho. O PT rompeu com a forma de administração. Isso é algo importante para a gente. A amizade continua, mas na parte de administração nós estamos fora. Nós achamos que não é a forma de administrar Riachão do Jacuípe.

Avelange – O que Teodomiro quis dizer e é verdade, que é preciso manter o diálogo. Se for preciso que eu, Teodomiro, Raimundo, necessite falar com o Prefeito, para discutir coisas que só vêm via instituição prefeitura, vamos fazer isso. Mas também temos certeza que a gente não comunga com a forma dele governar.

Riachao.com - O fato de que a oposição tinha seus candidatos para Deputado e que a situação se dividia entre os candidatos do Prefeito, do PT e até mesmo do Vice-Prefeito, não influenciou nas relações entre vocês? Não foi um dos motivos do rompimento?

Avelange - Eu acredito que sim. Eu particularmente pensava desde o princípio da união que uma das dificuldades seria essa. Eram pensamentos extremamente diferentes e com o agravante de que o Prefeito não tem posicionamento político nenhum. Ele sempre se colocou como se fosse a favor do desenvolvimento de Riachão, mas eu disse a ele próprio que discordo dessa opinião, porque na mediada que ele diz ser a favor do desenvolvimento e, por causa disso, fica batendo de porta em porta, revela uma certa fraqueza, falta de caráter político e falta de amadurecimento do pensamento político. Isso só fez mal ao município. Esse foi um dos fatores que dificultou a afinidade do PT com o governo dele. Mas acima de tudo a questão ética que não era satisfatória. Quanto ao Vice, já não diria que tivesse um papel importante nessa questão.

Teodomiro – O partido fez uma reunião bem antes e decidiu o seguinte: Deixa o Prefeito caminhar sozinho e vamos caminhar de outra forma. No nosso entendimento, tudo que o Prefeito fez para a campanha de deputado, comparando, nós fizemos melhor. Andamos a pé e na soma de votos fomos mais vitoriosos, muito mais que o Prefeito com todo o poder de barganha.

Riachao.comComo vocês avaliam os dois primeiros anos do governo de Lauro Falcão?

Raimundo – Eu diria que isso é opinião pessoal. Mas ficou muito aquém da expectativa que foi criada pela população no sentido da mudança. Pensávamos em romper com aquela forma arcaica de governar que já vinha aí há 40 anos no domínio de Riachão. Coloca-se um jovem, mas infelizmente com a mentalidade tão arcaica quanto aqueles que governaram antes. Decepcionou quem votou pela mudança.

Teodomiro – Acho que o governo descumpriu o acordo. Não um acordo feito em particular com A, B, ou C, mas um acordo com o município. Isso levou nosso partido a se separar. Não cumpriu a parte social, não cumpriu a parte educacional. Nós deixamos de receber o selo UNICEF porque o município não cumpriu as metas do PETI, da Ação Social. Nós perdemos para São Domingos.

Avelange – Eu considero um governo desencontrado, passou tempo suficiente para ele se encontrar e ele nunca conseguiu fazer isso. Com isso não quero desmerecer alguns esforços inclusive do próprio PT quando esteve lá. A gente admite que houve certos esforços de pessoas quase que isoladamente no governo e que de fato correram atrás de alguma coisa. Enquanto gestor ele deveria ter uma posição política firme, na medida em que pula de galho em galho, se ele pintar o município de ouro, coisa que não vai conseguir fazer, eu acredito que dificilmente ele terá credibilidade da população. Porque ele não se encontrou e o governo dele não se encontrou.

Riachao.com – E quais serão os próximos passos políticos de vocês nesses dois anos que faltam?

Raimundo - Dentro do partido nós teremos uma discussão maior, aprofundada internamente, mas temos a intenção de discutir com a sociedade um projeto para Riachão. Esse projeto terá sucesso se ele for alicerçado com a eleição de um gestor do PT. O partido pretende começar a partir de janeiro de 2007, participar com a sociedade, reuniões nas associações, nas comunidades, com todos os seguimentos da sociedade jacuipense, buscando subsídios para se formar um plano de governo para Riachão. Inclusive nós fizemos no passado quando éramos pré-candidatos em 2004 um programa, ele foi impresso e distribuído. Infelizmente tivemos que abortar nossa candidatura em prol da candidatura de Dr. Lauro, o programa foi por água a baixo, a sociedade não participa de um projeto como se propaga. Na época discutimos um programa para Riachão, e não para o PT.

Riachao.comA medida do Prefeito de ter se filiado ao PMDB, como foi vista por vocês?

Teodomiro – Filiação por filiação, sair por sair de partido A ou partido B, isso ainda não é o ponto de resolver o problema de Riachão. Na verdade a população pensa o seguinte: é porque mudou de partido que resolve o problema da cidade. O problema da cidade é que o gestor tem que ser gestor mesmo. Ele pode ser gestor tanto do PT, quanto do PMDB, ou do PFL, a população tem que entender que essa mudança não influi em nada. O problema é ser gestor. É aquela historia: você dá mil reais a uma pessoa, ela vai fazer uma feira, vai com uma lista na mão, volta, gasta tudo e não trás nada que tinha na lista. Temos que ter um gestor que pensa nas políticas públicas de Riachão.

Raimundo – Acrescentado, eu penso que qualquer cidadão que não tenha uma ideologia política, ele não é digno de credibilidade. Você precisa defender algo. Às vezes até você defendo o errado, mas ta defendendo ele. A questão do nosso gestor é que 15 dias depois dele ter dado uma votação expressiva a dois candidatos do PFL, ele vai pro PMDB. Agora eu faço dois questionamentos: Esse deputado do PMDB que ele escolheu agora. Será que ele vai querer ajudar Riachão? Já que ele não foi votado aqui. E aqueles que ele elegeu, usando inclusive a máquina pública pra dar voto a Resedá e a Fábio Solto. Riachão vai perder esses votos? Não teremos benefícios trazidos por esses deputados? Acho que a principio ele prejudicou a sociedade jacuipense. Ele apoiou dois deputados, defendia que eram os melhores, e um deles inclusive usou uma metáfora um dia que era bem assim: “As pedras que hoje atiram em Laurinho, vamos usar para fazer um canteiro de obras em Riachão do Jacuípe”. E aí? Agora apresenta um novo candidato que não foi votado em Riachão. Isso é uma atitude de um cidadão que não tem uma projeção definida quanto sua formação política. Ele acha que pular para estar no governo é a única forma de se governar. Isso é mito, deve ser quebrado.

Riachao.comPara finalizar, Riachão do Jacuípe, precisa necessariamente do quê?

Teodomiro – Riachão precisa de gestores que discutam um projeto para Riachão do Jacuípe. Isso é importantíssimo. E não é um projeto feito dentro de gabinete, deve ser feito com o povo de nossa cidade. Temos que discutir com o pessoal da pesca, da zona rural, com o pequeno produtor, é um negócio complicado. Quem não fizer um projeto participativo com o povo, pode colocar Teodomiro, Avelange, Raimundo, que não vai resolver. Tem discutir com a população, pois ela que sabe o que nós precisamos.

Raimundo – Precisamos de um gestor que tenha zelo no trato da administração pública. A sociedade tem que conhecer o que vem para o município, quanto, como está sendo gasto e onde está sendo gasto. Eu questiono qualquer jacuipense que saiba dizer qual o montante de recursos que chega mensalmente. Aqui se especula. Temos que trabalhar com dados concretos. Essa foi uma bandeira de campanha nossa, pregando a transparência no trato do que é público, mas Riachão não sabe o que vem e como é gasto. ;;

Avelange – Nós precisamos é de participação popular cada vez mais. Temos que ter um bom gestor, isso é fundamental, mas sem o acompanhamento da população, sem sua presença nos conselhos municipais e em todos os espaços criados para sua participação, isso tudo não funciona. Ou a população de Riachão toma consciência de que o governo deve pertencer a ela própria, ou vamos continuar a nos decepcionar até com candidatos que tenham boas intenções e sejam honestos. Não por serem incapazes, mas acontece, humanamente falando é impossível um só gestor resolver todos os problemas. Precisamos de participação do povo.