Terra e trabalho para os deserdados do Sertão
Por Rafael
Publicada em 20 de September de 2006 às 09h44
Em muitos municípios da região semi-árida da Bahia, o constante processo de partilha das propriedades rurais fez surgir uma grande parcela de deserdados. Espremidos em propriedades de um ou dois hectares ou sem terra nenhuma, esses agricultores não têm como garantir o sustento de suas famílias, e ficam obrigados a trabalhar em terra alheia ou engrossar as fileiras dos desempregados rurais e urbanos. E em regiões como a do Sisal, a alternativa de ocupar terra improdutiva tampouco existe – latifúndios com essa característica não há na região.
Nos Territórios Rurais do Sisal e da Bacia do Jacuípe, 52% dos estabelecimentos rurais têm até 5 hectares – quantidade de terra insuficiente para sobreviver no semi-árido.
Nessas regiões, há quase 100 mil pessoas que precisam de terra para
poder sobreviver da agricultura. Sem essa terra, não tem uma
perspectiva sustentável de sobrevivência e permanência para essas
famílias no meio rural. Alguns agricultores, porém, mobilizados,
informados e incentivados pelos movimentos sociais da região, começam a
vislumbrar uma outra perspectiva para uma vida digna no campo: A
aquisição de terra através do Programa Nacional de Crédito Fundiário
(PNCF), pelo qual o Governo Federal concede financiamentos para a
compra de terra, a construção de moradias e a implantação de projetos
produtivos nos assentamentos. Novo Horizonte na própria terra No lugar
de uma fazenda no município de Ourolândia, a 363 km de Salvador,
abandonada há oito anos, um grupo de 26 famílias começou a estruturar
sua nova vida como donos de terra própria. Nos fundos das casas
construídas em sistema de mutirão através de um Subprojeto de
Investimento Comunitário (SIC), uma forma de financiamento a fundo
perdido prevista no programa, já começa a se espalhar o verde de hortas
cheias de abóbora, tomate, pimentão, coentro, girassol, berinjela, e
muitos outros tipos de hortaliças para consumo próprio. A base
produtiva do assentamento de 822 hectares batizado de Novo Horizonte,
porém, é constituída pelos 22 hectares de sisal que já existiam no
local, mas precisavam ser recuperadas, e outros tantos de sisal
replantado, e o rebanho de caprinos e ovinos que o grupo cria de forma
coletiva. A aquisição dos animais está em curso e o projeto prevê a
compra de um total 200 matrizes cuja renda, junto com a do sisal,
garantirá o pagamento da terra. Ao contrário dos assentamentos da
Reforma Agrária que se viabilizam através da desapropriação de terra
improdutiva e a indenização dos proprietários, os assentamentos do
Crédito Fundiário se baseiam na compra da terra através da livre
negociação. No caso do assentamento Novo Horizonte, o valor da terra é
de R$ 150 mil, financiado a juros anuais de 3% em 14 anos e com
carência de dois. “Só o sisal que destocamos e plantamos é o suficiente
para quitar a primeira parcela do crédito no valor de R$ 4 mil”,
assegura Geraldo Ferreira da Silva, presidente da associação do
assentamento. Pelas regras do Crédito Fundiário, se o assentamento
quitar todas as parcelas em dia, tem direito a um rebate de até 50% do
valor total. Esperança por uma vida melhor Terra e muito, muito
trabalho – é isso que o grupo conquistou. “Esse projeto é muito bom
para pobre que gosta de trabalhar”, garante Deraldo Trabuco Lima, com
63 anos o mais velho do grupo. Deraldo foi um dos pioneiros e já tentou
conquistar a sua terra no governo anterior, mas só agora conseguiu
alcançar seu sonho. Já está colhendo sua primeira safra de milho e
feijão de corda e lembra-se daquilo que diz ser o dia mais feliz da sua
vida: “O dia de mais alegria foi quando veio a notícia que o governo
pagou a terra”, comemora ainda hoje. Isso foi em Junho de 2005 e hoje
já se percebe a mudança que a conquista da terra gerou na vida das
famílias. Até as crianças passaram a comer mais, o que o grupo não só
atribui às hortas e plantações, mas também à qualidade da água que no
assentamento jorra de um poço artesiano que já existia no local e é
suficiente para abastecer toda a comunidade. A luz elétrica também já
chegou, graças à garra e iniciativa do próprio
grupo, que acabou fincando postes de energia na praça do povoado e
aproveitando a ligação que já existia na fazenda. Muitos dos assentados
em Novo Horizonte eram desempregados, viviam de bicos, ou plantavam em
terra alheia. Agora, estão orgulhosos em se ver como proprietários de
extensões de terra que nos seus municípios de origem, na Região
Sisaleira, seriam inalcançáveis. Para isso, pagam o preço da distância
da terra natal. A maioria vem de Conceição do Coité, que fica a 245 km
do assentamento. Foi o preço das terras bem acima do limite permitido
pelo Programa de Crédito Fundiário, que os fez encarar um novo começo
numa terra distante. Longe ou distante – os desafios se parecem Não tão
longe dos seus municípios de origem e ainda sem luz nas suas casas
recém construídas, mas com um povoado enfeitado de flores e o verde do
milho cercando as casas, o assentamento Esperança, no município de
Biritiba, também é fruto do Programa Nacional Crédito Fundiário. Esse
grupo conseguiu conquistar sua terra na mesma época do Assentamento
Novo Horizonte. A região que dista 325 km de Salvador e fica perto de
Jacobina, porém, já é outra – predominam o relevo e clima serranos do
Piemonte da Chapada Diamantina, com temperaturas mais frescas e um rio
que passa perto do assentamento. O grupo já colheu sua primeira safra
de milho, mas ainda luta para implementar os cultivos que garantiriam
renda suficiente para o pagamento das parcelas do crédito. A maioria
das famílias que compõem o assentamento já tinha desistido da
agricultura no momento em que foram incentivados a participar do grupo
que se propunha a comprar terra própria. José Jercival Gomes, por todos
conhecidos como “Bal”, conta que foi difícil reunir um número
suficiente de famílias na zona rural. “Depois de participar de um
seminário em Riachão do Jacuípe, onde o MOC fez a apresentação do
Programa, tentei reunir o pessoal, mas só apareceram 10 famílias. Aí
senti que precisava ir ao encontro de outras famílias que tinham se
deslocado da região para a periferia das cidades”, explica.
Desempregados tornam-se donos de terra “A maioria dos assentados aqui
eram desempregados e moravam sem água encanada e sem luz. Eram meeiros,
que não tinham uma moradia própria”, conta Gecilene Oliveira,
secretária da Associação Assentamento Rural Esperança, que conta com 25
famílias. “Hoje, além de casas, nós temos a terra para plantar e não
dependemos mais de um fazendeiro que diz para tirar a roça que deu para
plantar antes do momento, como muitas vezes aconteceu com as pessoas
que moram aqui nesse assentamento.” Para garantir o sustento e ganhar o
dinheiro para pagar o crédito, o projeto do assentamento prevê a
criação de ovelhas e vacas leiteiras e cultivos de banana e maracujá. A
organização comunitária é exemplar: “Todas as sextas-feiras é dia de
mutirão, a gente junta as pessoas e vai ao trabalho para dali tirar o
lucro”, enfatiza Gecilene. Mas para muitos, esse espírito comunitário é
algo completamente novo na sua vida e teve que ser construído ao longo
da demorada luta pela terra. “Nos grupos teve pessoas que nunca tinham
participado de uma reunião, eram tímidas e desorganizadas. O maior
desafio é transformar estas pessoas em pessoas ativas e passar
credibilidade para eles, pois na maioria das vezes elas não acreditam
que pode dar certo. O histórico da vida deles parece que diz: isso não
vai dar certo”, comenta Neilan Leite Silva, capacitador local do
projeto especial Acesso à Terra do MOC em Jacobina. Outro desafio,
segundo Neilan, é a própria demora do processo, desde a formação do
grupo até a compra da terra. “Infelizmente, muitos acabam desistindo”,
comenta. No caso do Assentamento Esperança, o processo levou dois anos
e meio desde a fundação do grupo até a compra da terra. Mas para os que
persistiram, a recompensa está na mesa: o alimento que vem da própria
terra e garante a sobrevivência da família. Publicado originalmente na
página do Movimento de Ação Comunitária (www.moc.org.br).