É avida tem dessas coisas

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Publicada em 16 de November de 2004 às 21h57

O papel higiênico e a lata de moedas

Thaís Soldá Araújo


“Eu me recuso a conversar com um papel higiênico.”

Mas sem perceber, era isso mesmo o que eu estava fazendo logo após de dizer essa frase em voz alta.Contei várias coisas ao papel higiênico e qual não foi minha surpresa ao perceber que a latinha que eu colocava minhas moedas estava me olhando também, e me ouvindo com o maior interesse do mundo. Ficaram os dois lá, olhando e compreendendo tudo.

“Eu sei que vocês não vão me ligar numa hora em que eu estiver precisando e nem vão me dar o ombro de vocês para chorar, mesmo porque não possuem ombros, mas isto é o suficiente, ter alguém, ou algo para conversar já é o suficiente”.

Estava eu entre lágrimas, contando ao papel higiênico e à latinha de moedas, o motivo de estar tão triste.

Tem uma coisa dentro da gente, que em determinado momento da vida (ou mais de um momento) se aciona e faz a gente querer gritar muito. Algumas pessoas não gritam por medo de que instantaneamente alguém surja de repente e as leve para um hospício, então a única coisa que resta é chorar.

Sabe – dizia eu ao papel higiênico – estou virando amiga íntima da tristeza, ela vem me visitar todos os dias, mais do que meus amigos e minhas amigas, mais do que até mesmo meu próprio namorado. Sabe quando a gente cansa de encher a paciência dos outros com seus problemas e reclamações? Quando cansa de tornar suas lágrimas públicas? Chega um momento em que a gente desiste, e quando se dá conta, fica assim igualzinha a mim, conversando com um papel higiênico, ou uma lata de moedas, ou um liquidificador, ou qualquer objeto que esteja mais próximo.Existe um momento da vida, em que a gente quer simplesmente falar...não precisa de opiniões e nem ouvir a voz do outro, e nem perguntar “Você está aí? Você está me ouvindo?”, a gente quer apenas...falar!

Sei que parecia loucura, mas nem percebi, entrei no meu quarto já falando e a primeira coisa que olhei foi o papel higiênico e de repente, ele parecia me ouvir como ninguém, no momento, parecia o único que se interessava por meus problemas e pelas minhas lágrimas, mesmo porque, naquele momento, por ironia dessa história, ele era o único realmente que poderia enxugá-las. Ele não me criticava, nem dava suas opiniões, mas se tornou alguém que me deu a impressão de ter parado o mundo, congelado o tempo, apenas para me escutar.

Estes dias eu estava tão triste, que até consegui definir a tristeza, eu a defini como uma fumaça que entra no coração... como uma coisa fria.Foi em um verso que consegui escrever, depois de meses sem escrever nada, acho que quando a gente se desespera, a inspiração bate do nada.

Andei chorando muito esses dias, ainda não me sinto completamente aliviada, mas acreditem, por incrível que pareça, existiu numa noite, em algum lugar, um papel higiênico e uma lata de moedas que tornaram-se os melhores amigos de alguém, e que por incrível que pareça, esse alguém se sentiu confortado.

Re: É avida tem dessas coisas (Pontos: 1)
por Armando_Solari_Almeida em Wednesday, November 17 @ 22:56:06 BRST
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Acontecem coisas assim quano se eh "ser humano". E estão faltando seres humanos entre as pessoas. Mas estamos evoluindo. Tem um poema que explica melhor o que eu quero dizer (eh bem raro algo de outra pessoa explicar uma coisa minha, mas esse chega perto) vou ver se acho qualquer dia desse. Foi tema de Redação até.



Re: É avida tem dessas coisas (Pontos: 1)
por deepak em Monday, November 29 @ 02:01:24 BRST
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Achei ótimo Georgio, foi de uma leitura bem agradável, bem interessante. Um abração.