Britânicos punem Blair por sua aliança com Bush sobre o Iraque
Por Michel Moreira
Publicada em 13 de June de 2004 às 21h12
Frederick Studemann*
Em Londres
O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, foi castigado nesta sexta-feira (11/06) por sua política para o Iraque, quando os eleitores em eleições locais abandonaram em massa seu partido. Antes de um fim de semana em que a maior parte da Europa vai às urnas, Blair sofreu um grave golpe contra seu governo. O Partido Trabalhista ficou num terceiro lugar inédito para um partido governante e perdeu o poder em alguns de seus redutos tradicionais. Figuras importantes do governo admitiram que o partido recebeu um "pontapé".
O vice-primeiro-ministro, John Prescott, culpou a fraca atuação do partido em relação ao Iraque, que, segundo ele, superou os êxitos no campo doméstico. "O Iraque foi uma nuvem, ou mesmo uma sombra nessas eleições", ele disse ontem à rádio BBC. "Mortificado", o ministro do Interior, David Blunkett, também admitiu que "a sensação é de que o Iraque deu errado".
A aliança inabalável de Blair com os Estados Unidos sobre o Iraque o fez perder muito apoio em seu partido e lhe custou caro nas pesquisas de opinião. A ampla oposição à invasão liderada pelos Estados Unidos também contribuiu para a derrota em março do Partido Popular da Espanha, liderado por José María Aznar, um aliado de Blair e Bush.
Ontem à noite, Blair tentou estabilizar o Partido Trabalhista, declarando que os resultados da eleição não têm implicações para as próximas eleições gerais. Falando em Washington, o primeiro-ministro disse: "O que temos de fazer é segurar os nervos e esperar passar. É claro que é um tempo difícil, e essas coisas acontecem com os governos. Mas os compromissos básicos que fizemos estamos mantendo".
Também parecia haver um elemento anti-poder na eleição no Reino Unido, já que nenhum partido isolado lucrou às custas do Trabalhista. Os votos pareciam ir para qualquer grupo de oposição ou marginal melhor posicionado para derrotá-los.
Com cerca de dois terços dos votos contados, o Partido Trabalhista havia conseguido estimados 26%, atrás dos conservadores da oposição, com 38%, e dos liberal-democratas com 30%. As perdas dos trabalhistas incluíam as cidades de Leeds e Newcastle, no norte do país, e Cardiff, a capital do País de Gales.
O partido enfrenta a perspectiva de mais notícias negativas amanhã, quando forem anunciados os resultados das eleições para o Parlamento Europeu.
Em uma reviravolta notável para um político cuja popularidade foi durante anos um dos maiores trunfos de seu partido, Blair disse recentemente que estaria preparado para renunciar caso se tornasse uma desvantagem. Perguntado ontem à noite se os resultados tinham implicações para sua liderança, Blair disse: "Me dá vontade de esperar isso passar".
Mas enquanto os fracos resultados desta semana vão intensificar a pressão sobre a liderança de Blair, o Partido Trabalhista continua o favorito para ganhar a próxima eleição geral, que deverá se realizar no ano que vem.
Os trabalhistas sofreram uma derrota nas eleições locais em 2000, quando os conservadores obtiveram cerca de 38%. Mas Blair conseguiu uma vitória arrasadora na eleição geral no ano seguinte.
Em Londres houve uma boa notícia para os trabalhistas, onde Ken Livingstone, o candidato do partido para prefeito, voltou ao cargo.
*Com reportagem adicional de James Blitz, em Washington.