Uma novela com tudo dentro
Data: Saturday, April 30 @ 01:27:13 BRT
Tópico: TV


“A Lua me Disse”, nova novela das sete da Globo, começou em ritmo ágil misturando drama, comédia, histórias rocambolescas, diálogos espirituosos, excelentes atores, figurinos multicoloridos... Encheu os olhos? Sim. Mas cegou um pouco também.

Marcelo Camacho
23.04.2005

O título aí de cima parece um elogio – e é mesmo. Mas é também uma crítica.

“A Lua me Disse”, a nova novela das sete da Globo, teve um começo de encher os olhos, com drama, comédia, diálogos espirituosos, excelentes atores em cena, ritmo ágil, tudo o que, antigamente, costumava caracterizar uma boa trama do horário. E isso é bom demais. Só que a história de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, que estreou na segunda-feira passada, também teve pressa. Pressa de agradar, emplacar, passar o seu recado, conquistar o público. Jogou, logo de cara, todas as suas cartas na mesa. E exagerou. “A Lua me Disse” é uma novela que tem tudo dentro, mas tudinho mesmo: figurinos multicoloridos, cenários extravagantes, histórias rocambolescas, gritaria, corre-corre e o que mais se possa imaginar – até um computador dourado uma das personagens tem. Diante de tanta informação, não sobrou tempo para o espectador recuperar o fôlego. E isso não foi nada bom. Encheu os olhos? Sim. Mas cegou um pouco também...

Mesmo assim, “A Lua me Disse” tem potencial para ser uma ótima novela das sete, bem ao estilo do que o gênero já produziu de melhor. Pelo menos, as intenções para isso estão todas ali. Não é preciso ser tão velho assim para saber que a novela das sete da Globo forjou sua melhor identidade nos anos 80 pelas mãos dos autores Silvio de Abreu e Cassiano Gabus Mendes. Hoje, são clássicas as tramas cômicas, amalucadas e muito populares escritas pelos dois entre 1981 e 1988. Quem não se lembra dos tipos de Cassiano, como o detetive Mario Fofoca, de “Elas por Elas” (1983), e os costureiros Jacques Leclair e Victor Valentim, de “Tititi” (1985)? E como esquecer os personagens de Silvio de Abreu, como Bimbo e Cumbuca, de “Guerra dos Sexos” (1984), e Tina Pepper e Ana Machadão, de “Cambalacho” (1986)? A esses títulos, somam-se “Plumas e Paetês” (1981) e “Brega e Chique” (1987), de Cassiano, e “Jogo da Vida” (1982) e “Sassaricando” (1988), de Silvio. Todas inesquecíveis.

Pois mais ou menos na mesma época em que Cassiano Gabus Mendes e Silvio de Abreu escreviam essas novelas, Miguel Falabella fazia – como ator e autor – o melhor do teatro besteirol nos palcos cariocas, em espetáculos como “Finalmente Juntos e Finalmente ao Vivo” (1983) e “As Sereias da Zona Sul” (1987). Pelo que se viu nos primeiros capítulos, “A Lua me Disse” é herdeira de todo esse caldeirão de influências absurdas e divertidas dos anos 80 – no texto, no humor, no elenco. Sem pudor algum. E sem parecer datada.

Até agora, a personagem mais cômica da trama é Dona Roma (vivida por Miguel Magno, outro ator egresso do teatro besteirol), simplesmente um homem que se veste e se comporta como mulher – embora todos saibam que ele é homem. Lembra muito as personagens femininas que Falabella e Guilherme Karam interpretavam em “A Sauna”, o melhor esquete de “As Sereias da Zona Sul”. Dona Roma também é parente distante de Anabela Freire, um dos muitos disfarces hilariantes de Volpone (Ney Latorraca), em “Um Sonho a Mais”, novela que Lauro César Muniz escreveu em 1985. Até na trilha sonora os anos 80 estão presentes: o tema musical do possível casal formado por Adriana Esteves e Wagner Moura é uma releitura atual de “Por que não eu?”, sucesso do Kid Abelha em 1986.

Fora isso, a “A Lua me Disse” é uma ação entre amigos. Ou melhor, amigas. Embora Roberto Talma assine a direção da novela, a impressão que se tem é a de que foi Miguel Falabella quem escalou o elenco feminino. Quase todas as suas amigas, companheiras de outros trabalhos, estão lá: Zezé Polessa, Arlete Salles, Aracy Balabanian, Débora Bloch, Maitê Proença, Stela Miranda, Jacqueline Lawrence, Zezé Barbosa, Xica Xavier, Telma Reston, Patrícia Travassos, Beth Goulart, Bia Nunes, Maria Gladys. Ufa!
Falabella é um homem que ama as mulheres – pelo menos as suas amigas – e fez uma novela para elas. O público feminino, a maioria no horário das sete, deverá gostar da ênfase, embora, por enquanto, a audiência não tenha sido lá grandes coisas. A estréia de “A Lua me Disse” marcou apenas 32 pontos. É pouco. Reflexo de “Começar de Novo”, o fracasso anteriormente exibido no horário? Pode ser. O certo é que “A Lua me Disse” merece mais. Basta dar uma corrigida no estilo exageradamente espalhafatoso e seguir em frente.

Só mais um probleminha. Por mais incrível que isso possa parecer, há semelhanças demais entre “A Lua me Disse” e “América”, a novela das nove da Globo. As duas têm como cenário uma pensão movimentada que fica perto de uma pequena casa de shows/boate, onde alguns dos personagens se apresentam cantando. Coincidência demais, não? Não é só: em “América”, o personagem Gomes, um ex-policial, investiga a vida de todo mundo no bairro de Vila Isabel. Em “A Lua me Disse”, a “detetive” é Dona Roma, a proprietária da pensão. Há ainda o personagem Gibraltar, que, apito na boca, controla a vida de quem põe a cara nas ruas do Beco da Baiúca, “em nome da ordem, da disciplina e do cumprimento do dever”. De novo, tal qual o Gomes de “América”. Estranho isso...

P.S. 1 – A abertura de “A Lua me Disse” é quase um clone da abertura da minissérie “Anos Rebeldes”, de 1992. Difícil entender por quê.

P.S. 2 – Na trama, Arlete Salles vive Ademilde, a dona de uma loja chamada “O Frango com Tudo Dentro”. Bem que esse poderia ser o nome da novela. “A Lua me Disse” é um título muito cafona.

P.S. 3 – Algumas frases dão a idéia do humor elaborado do texto. “Mulher sem homem é uma morta que caminha” foi dita pela personagem de Maria Zilda. Já a personagem de Maria Gladys saiu-se com a ótima “Esse gato já nasceu com bigode cheirando a peixe roubado”. Que venham mais!

P.S. 4 – Vamos torcer para que o personagem de Marcos Pasquim não tire a camisa e estrague tudo.

P. S. 5 – O que é o nariz de palhaço que puseram em Paulo Vilhena? Que maldade!
Enviado por: Charles Castro





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