
É avida tem dessas coisas
Data: Tuesday, November 16 @ 21:57:34 BRST Tópico: Humor
O papel higiênico e a lata de moedas
Thaís Soldá Araújo
“Eu me recuso a conversar com um papel higiênico.”
Mas sem perceber, era isso mesmo o que eu estava fazendo logo após de dizer essa frase em voz alta.Contei várias coisas ao papel higiênico e qual não foi minha surpresa ao perceber que a latinha que eu colocava minhas moedas estava me olhando também, e me ouvindo com o maior interesse do mundo. Ficaram os dois lá, olhando e compreendendo tudo.
“Eu sei que vocês não vão me ligar numa hora em que eu estiver precisando e nem vão me dar o ombro de vocês para chorar, mesmo porque não possuem ombros, mas isto é o suficiente, ter alguém, ou algo para conversar já é o suficiente”.
Estava eu entre lágrimas, contando ao papel higiênico e à latinha de moedas, o motivo de estar tão triste.
Tem uma coisa dentro da gente, que em determinado momento da vida (ou mais de um momento) se aciona e faz a gente querer gritar muito. Algumas pessoas não gritam por medo de que instantaneamente alguém surja de repente e as leve para um hospício, então a única coisa que resta é chorar.
Sabe – dizia eu ao papel higiênico – estou virando amiga íntima da tristeza, ela vem me visitar todos os dias, mais do que meus amigos e minhas amigas, mais do que até mesmo meu próprio namorado. Sabe quando a gente cansa de encher a paciência dos outros com seus problemas e reclamações? Quando cansa de tornar suas lágrimas públicas? Chega um momento em que a gente desiste, e quando se dá conta, fica assim igualzinha a mim, conversando com um papel higiênico, ou uma lata de moedas, ou um liquidificador, ou qualquer objeto que esteja mais próximo.Existe um momento da vida, em que a gente quer simplesmente falar...não precisa de opiniões e nem ouvir a voz do outro, e nem perguntar “Você está aí? Você está me ouvindo?”, a gente quer apenas...falar!
Sei que parecia loucura, mas nem percebi, entrei no meu quarto já falando e a primeira coisa que olhei foi o papel higiênico e de repente, ele parecia me ouvir como ninguém, no momento, parecia o único que se interessava por meus problemas e pelas minhas lágrimas, mesmo porque, naquele momento, por ironia dessa história, ele era o único realmente que poderia enxugá-las. Ele não me criticava, nem dava suas opiniões, mas se tornou alguém que me deu a impressão de ter parado o mundo, congelado o tempo, apenas para me escutar.
Estes dias eu estava tão triste, que até consegui definir a tristeza, eu a defini como uma fumaça que entra no coração... como uma coisa fria.Foi em um verso que consegui escrever, depois de meses sem escrever nada, acho que quando a gente se desespera, a inspiração bate do nada.
Andei chorando muito esses dias, ainda não me sinto completamente aliviada, mas acreditem, por incrível que pareça, existiu numa noite, em algum lugar, um papel higiênico e uma lata de moedas que tornaram-se os melhores amigos de alguém, e que por incrível que pareça, esse alguém se sentiu confortado.
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