
Pioneiro do MP3 cria tecnologia de som espacial
Data: Wednesday, August 18 @ 08:33:52 BRT Tópico: Multimidia
Uma nova tecnologia de som 3D promete tornar todos os assentos do cinema acusticamente perfeitos. Mas será que os consumidores e as empresas de entretenimento estão preparados?
Num escuro estúdio de som, executivos da Disney, Microsoft, Paramount e várias empresas de entretenimento de Hollywood ouvem os sussurros de fantasmas.
O lugar não é assombrado. Eles estão aqui para uma demonstração privada do Iosono, uma nova tecnologia de som imersivo desenvolvida por Karlheinz Brandenburg - o inventor alemão considerado responsável por boa parte do desenvolvimento e comercialização do codec MP3 nos anos 80 e 90.
Os criadores do Iosono alegam que ele proporciona o que chamam de "som tridimensional", e que ele pode revolucionar a experiência de entretenimento de salas de cinema, parques temáticos, jogos eletrônicos e home theaters.
Embora o sistema ainda não esteja comercialmente disponível, ele foi publicamente demonstrado num cinema em Ilmenau, Alemanha, durante os últimos dezoito meses. De acordo com Brandenburg, sua primeira instalação comercial será feita numa casa de espetáculos em 2005, e os criadores já estão em negociações com uma fabricante de eletrônicos não-identificada para que a tecnologia seja incluída em aparelhos de uso doméstico num futuro próximo.
Mas vários desafios ainda precisam ser superados. Os custos de instalação do sistema serão altos, e os estúdios provavelmente não irão produzir trilhas sonoras com a tecnologia Iosono enquanto não houver um número suficientemente grande de salas de cinema ou home theaters compatíveis.
O Iosono vem sendo desenvolvido desde 2000 por uma equipe liderada por Brandenburg na divisão de tecnologia de mídia do Instituto Frauenhofer, onde o formato MP3 foi criado. A demonstração nos EUA, feita quinta-feira passada, foi realizada pelo Centro de Tecnologias do Entretenimento, com a ajuda de engenheiros da empresa de pós-produção de áudio Todd-AO, que testou o sistema durante oito dias antes da apresentação.
A tecnologia se baseia em parte no conceito Síntese de Campo de Ondas, desenvolvido por pesquisadores na década de 80 na Universidade Técnica Delft da Holanda. Segundo os pesquisadores, fontes secundárias de som podem ser usadas para formar campos de onda primários. Aplicada à reprodução de áudio, essa idéia ajuda a simular sons muito mais realistas.
A demonstração feita em Los Angeles exigiu a instalação de vários componentes diferentes, o que também deve acontecer nas instalações comerciais. Oito subwoofers e 38 painéis contendo oito pares de alto-falantes cada preenchiam as paredes do estúdio. Os engenheiros usavam uma estação de trabalho de áudio espacial (ou SAW), composta do software gerenciador do Iosono e um tablet Wacom, para mapear fontes de som no formato MPEG-4 posicionando-as em locais específicos dentro da sala. Cinco interfaces digitais multicanal RME MADI convertiam e amplificavam os sinais. E onze computadores rodando Linux processavam os dados, entre eles um PC servidor de áudio, um PC que filtrava e corrigia a freqüência dos sons e um grupo de máquinas renderizadoras que cuidavam o posicionamento dos efeitos sonoros e "moviam" elementos específicos de um alto-falante para outro.
No caso de uma sala de cinema ou atração de parque temático, nenhuma manipulação ao vivo seria necessária. As trilhas sonoras seriam pré-gravadas e salvas num formato exclusivo que inclui informações de tempo e posição. Esses dados seriam executados por clusters de PCs e entregues aos cinemas prontos para ser reproduzidos pelos computadores do sistema. O número de caixas de som e computadores necessários ao funcionamento vai depender do tamanho do lugar a ser equipado.
Stanley Johnston, especialista em mixagem da Todd-AO cujos créditos incluem dezenas de grandes produções no cinema e na TV, começou a brincar com o sistema Iosono movendo elementos de som por todos os lados no estúdio. "Se você me perguntasse há oito dias se eu podia imaginar os diretores mudando sua forma de fazer filmes para acomodar isto, eu teria dito que não", declarou. " @break_text@
Os custos para ambos os lados da equação de Hollywood - os engenheiros de estúdio que produzem as trilhas sonoras e as salas de cinema onde elas serão reproduzidas para os espectadores - podem ser proibitivos. Dois tipos diferentes de licença de software serão oferecidos, com preços em torno de US$ 10 ou 15 mil cada. Os engenheiros de pós-produção vão precisar de uma licença do software SAW se quiserem criar conteúdo usando a tecnologia.
Para os cinemas, uma licença diferente será oferecida pelo sistema. A estrutura de preços vai depender do tipo e tamanho da instalação, e será baseada em parte no número de alto-falantes usados. Entre os custos adicionais para os cinemas estão as caixa de som e os computadores, o que pode resultar em custos finais de até seis dígitos.
As salas de cinema já estão enfrentando pressões para instalar sistemas de projeção digital, mas um investimento adicional no upgrade dos atuais sistemas 5.1 é uma proposta bem mais especulativa. Um número cada vez maior de cineastas está produzindo filmes usando equipamento de imagem digital, mas nenhum deles está usando o Iosono. "Para os profissionais de áudio do mundo do cinema, o 5.1 já é tecnologia antiga. Mas muito poucos clientes possui sistemas compatíveis em casa, e os cinemas ficarão relutantes em adotar algo novo sem a garantia de um retorno em seu investimento", disse o compositor e produtor musical Peter Fox, de Los Angeles. "Mas assim como o padrão um dia foi do mono para o estéreo e daí para o 5.1, algum dia ele passará a ser algo mais avançado".
Algumas das pessoas que assistiram à demonstração são mais céticas. "Talvez esse seja um ótimo sistema para alguns estabelecimentos específicos, mas não espero vê-lo nas grandes redes de cinema tão cedo', disse o engenheiro-chefe de uma grande empresa de pós-produção de Hollywood. "A demonstração foi interessante, mas não fiquei muito impressionado. Podemos fazer boa parte disso com os sistemas atuais".
Brandenburg argumenta que os cinemas já enfrentam desafios econômicos maiores na era digital, e que a experiência mais rica proporcionada pelo Iosono pode ser um bom motivo para fazer as pessoas saírem da frente de seus computadores e pagar por ingressos. "A instalação em clubes, parques temáticos e casas de espetáculo provavelmente vai acontecer antes dos cinemas", disse. "A rapidez de sua adoção em Hollywood depende do quão convencida estará a porção criativa de Hollywood sobre o potencial dessa tecnologia. Com base no que vi nos rostos das pessoas que assistiram à demonstração, estamos apostando que isso vai acontecer antes do que imaginávamos".
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