
Punk rock feito na hora
Data: Wednesday, August 18 @ 08:32:05 BRT Tópico: Multimidia
O punk está de volta, e trouxe seu laptop. Uma nova safra de bandas alternativas da Grã-Bretanha está mais uma vez chutando o traseiro da máquina corporativa da música, graças ao arsenal faça-você-mesmo da moderna tecnologia.
Usando a Web, os telefones celulares e serviços de mensagens instantâneas, esses grupos iniciantes estão realizando concertos secretos e espontâneos em lugares não-convencionais, numa tendência que vem sendo chamada de guerrilla gigging (algo como "shows guerrilheiros").
Fonte de vida de uma nova cena musical em Londres, os guerrilla gigs tornaram-se conhecidos mês passado, quando uma das bandas novas mais comentadas da capital inglesa, The Others, "confiscou" dois vagões do metrô londrino, fazendo um show improvisado para 200 fãs.
Enquanto bandas mais estabelecidas teriam demorado vários meses e precisado de uma cara campanha de marketing para fazer o mesmo, a The Others conseguiu reunir o público em poucas horas graças a uma mensagem criptografada enviada ao fórum da banda na Internet em que os músicos pediam que seus fãs se encontrassem num pub local.
Já reunidos, os fãs usaram mensagens SMS para dar a dica a seus amigos antes de irem todos a uma estação de trem para a furiosa apresentação que durou 30 minutos.
Mesmo que shows de graça não sejam novidade, o recente sucesso de bandas quase desconhecidas em formar sua base de fãs e convocar apresentações de última hora pela Internet representa um golpe contra o marketing das gravadoras, que estão cada vez mais avessas ao risco e já foram vistas como indispensáveis para quem busca a fama.
Aproveitando a concentração espontânea de pessoas proporcionada pelas flash mobs, o guerrilla gigging decolou em novembro, quando o grupo Jane's Addiction anunciou apresentações inesperadas a seus fãs usando mensagens SMS. Esse ano, os ingleses do The Libertines usaram um fórum online para convidar seus fãs mais leais para um show surpresa.
Agora, um número cada vez maior de artistas está descobrindo que seu relacionamento com os fãs, consquistado com MP3 gratuitas e uma presença freqüente em grupos de discussão, é tão recompensador quanto qualquer turnê pré-planejada, e pode atrair um público entusiasmado até mesmo para as apresentações mais acidentais.
A diversão vem justamente da idéia de "tocar por tocar", de acordo com Chris Chinchilla, guitarrista da banda Art Brut, que usa um iBook G4 para gravar CD-Rs e posta mensagens no fórum de sua banda para anunciar shows em locais como galerias e capelas funerárias. "Você nunca sabe o que esperar. Pode combinar um show na noite anterior e no dia seguinte centenas de pessoas estarão lá", diz.
"Às vezes, a indústria fonográfica não quer ajudar, então você precisa fazer o que estiver ao seu alcance", diz Chinchilla. "Usamos SMS, e-mail, listas de discussão, meu Sony Ericsson T68i e tecnologias como o MSN Messenger e o iChat. A partir daí, as pessoas espalham a notícia".
"Realmente conhecemos os nossos fãs", disse o vocalista da The Others, Dominic Masters, à BBC Radio 1 recentemente, depois de ter convocado os usuários de sua lista de discussão para um revoltoso e desautorizado show instantâneo na recepção da emissora. "Em nosso website, meu telefone aparece em cada mensagem postada. Tenho os nomes de cerca de 500 garotos com quem costumo falar, e há cerca de mil endereços de e-mail divulgados no site".
A The Others conseguiu formar um grupo coeso de ouvintes que lhe rendeu o título de "banda nova mais cultuada da Grã-Bretanha" e que atenderá sem pensar duas vezes a qualquer convocação de show inesperado. "A força desse movimento está em sua comunidade", destaca Imram Ahmed, da publicação New Musical Express. "Os shows podem ser organizados em questão de horas. O local, a hora e o eventual valor do ingresso são anunciados nas mensagens. Os fãs se encontram num local combinado e depois vão juntos assistir a apresentação".
Segundo Howard Rheingold, autor de Smart Mobs, um livro que analisa como as novas tecnologias ajudam a reunir grandes grupos, o fenômeno é um exemplo perfeito de como a tecnologia ajuda a mobilizar ações culturais coletivas. "Assim como a guitarra Fender permitiu a revolução do rock n' roll, a telefonia celular e a comunicação em redes farão com que flash mobs, shows espontâneos e outras formas de entretenimento auto-organizado continuem a aparecer", disse.
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