Resenha sobre o filme “Carandiru”
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Publicada em 28 de May de 2003 às 14h05
Mesmo depois da sexta semana em cartaz, quando cheguei ao cinema para assistir Carandiru a fila estava imensa, mas nem sempre isso serve como parâmetro para justificar a qualidade de um espetáculo. Este filme é como uma fotografia que você quer ver várias vezes para analisá-la semioticamente e colher cada detalhe da riqueza de suas imagens.
Foi aí que questionei junto com o autor: que público é esse de mais de 3 milhões de pessoas que quer lotar os cinemas para ver um filme nacional? Seria o Brasil querendo ver o Brasil que não conhece? Ou o Brasil querendo ver a sua própria imagem na tela do cinema?
O filme, baseado no livro-reportagem do médico Drauzio Varella - que já vendeu mais de 400 mil exemplares-, tinha mesmo que alcançar sucesso de bilheteria. Estação Carandiru pode não ter sido roteirizado fielmente, mas com certeza colaborou na formação das imagens do excelente trabalho de Hector Babenco. Eu não li o livro, mas o que sei sobre ele é que o autor se preocupou em detalhar cada espaço do Complexo Carandiru, narrando-o minuciosamente.
É o que tenta fazer o autor de Carandiru, o mais novo sucesso do cinema nacional e que caminha para bater o recorde de bilheteria de 3,2 milhões alcançados por Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. As cenas são chocantes, mas existe uma preocupação de alternância entre elas com a imagem leve de um médico extremamente humano e que busca saber além dos problemas de saúde dos seus pacientes. Pode ter havido algum exagero no tratamento com presos violentes, questionam alguns, mas de que forma se comportaria um homem experiente e que enxergava a todos com os olhos da humanidade? O grande detalhe deste filme é que ele foi feito a partir do livro de Varella, mas nem por isso Babenco deixa de ser fiel às suas características. Vitimado por um câncer e tratado pelo mesmo médico de vários de seus personagens, ele conserva nesta obra um pouco do seu estilo de luta pela vida e, ao mesmo tempo, mostra a face real de um país que não soube preparar os seus filhos e o reflexo disso para a própria sociedade. É uma obra de cunho social muito forte, com uma narrativa feita a partir da denúncia de um drama nacional para um filme de dimensão internacional.
Hector Babenco, um argentino naturalizado brasileiro, consagrado internacionalmente com Pixote, a Lei do Mais Fraco e O Beijo da Mulher-Aranha (que deu o Oscar de melhor ator a William Hurt), coloca o seu terceiro filme na disputar pelo Oscar do cinema. Carandiru é o único longa-metragem latino-americano escolhido na seleção para a disputa do troféu Palma de Outro do Festival de Cannes, evento cinematográfico de maior prestígio na Europa, que concorrerá com outros
20 filmes de treze países diferentes, a ser realizado no período de 14 a 25 de maio. O cinema nacional só conquistou este prêmio uma vez, em 1962, com O Pagador de Promessas.
As cenas de violência têm o seu ápice no final do filme com a invasão das Tropas de Choque do Polícia Militar ao Pavilhão 9 do então maior Complexo Penitenciário da América Latina. Motivo de algumas críticas, foi nestas cenas, entretanto, que vi muita autenticidade do autor, mostrando sem cortes a violência da polícia contra os presos no massacre de 2 de outubro de 1992, provocando um saldo de 111 mortos e vários feridos. Parece que havia a preocupação em mostrar ali dois Brasis: as cenas do metrô levando um povo aparentemente livre e indiferente, e o desespero dos que estavam nas carceragens lutando muito mais pela própria vida do que pela liberdade.
O Brasil não será outro depois de Carandiru. Mas o filme passará a ser um espelho de reflexão dos problemas que tanto tem contribuído para a exclusão da classe desvalida e a própria escravidão dos mais poderosos. Babenco se preocupa com isso e suscita essa discussão quando projeta imagens de jovens da classe média na prisão se misturando com negros e pobres, que respondem por crimes de estupro, tráfico de drogas, assaltos, assassinatos etc. As imagens do sangue correndo pelas escadas mostram um Brasil envergonhado e o saldo do encontro entre duas correntes que lutam desesperadamente pela sobrevivência: a dos bandidos no mundo do crime; e a de uma polícia de um Estado omisso e violento.