O comportamento da mulher sexy, o homem gay e o negro
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Publicada em 11 de May de 2003 às 11h23
Os autores analisam a problemática da identidade cultural, a imagem, o comportamento e de que forma a mulher sexy, o homem gay e o negro são vistos pela sociedade. Preocupam-se em mostrar as várias maneiras que os três elementos analisados buscam seus espaços, seja nos meios de comunicação, nas avenidas, na internet, no teatro ou na literatura.
As formas pelas quais eles buscam suas identidades nem sempre são iguais, mas não é difícil entender que todos eles procuram ser ouvidos, conquistar suas cidadanias, uma espécie de auto-afirmação. Entretanto, da mesma forma se percebe a resistência que sofrem para serem reconhecidos, independente dos métodos e dos meios que são utilizados.
São assuntos bastante polêmicos que os autores trazem para discussão sem esconder as peculiaridades de cada um. O foco central dessa discussão é a forma como a mulher nova, a mulher sexy, a mulher liberal dos nossos dias, o negro e o homem gay são encarados pela sociedade, com os autores usando métodos diferentes para desenvolver os seus textos. Gisele Nussbaumer, por exemplo, aborda a questão do gay com uma visão evolutiva sobre a classe, enxergando a inserção e a visibilidade que ela vem conquistando na sociedade, inclusive no mercado de trabalho. Para isso oferece dados, cita passeatas, desfiles, a conquista do fim do anonimato, o espaço na mídia e a repercussão internacional.
Esse mesmo enfoque é seguido por Hellen Pacheco ao tratar da representatividade da imagem e a discussão pela conquista de espaço do negro. A Revista Raça Brasil é uma espécie de referencial para provar que o negro resiste e foi à luta, assim como é o uso bem sucedido da sua imagem como produto da mídia. Há que se questionar, entretanto, quando o autor diz que “O contraste social no Brasil é o espelho do contraste racial”. Existe um exagero em atribuir tanto peso à cor negra, afinal a nossa pobreza não tem cor. Não nos parece correto também defender que projetos de definição de cotas venham diminuir a diferença racial, como o do Deputado Paulo Paim (PT-RS) que define cota de 25% de presença de negros e afros descendentes na TV. Ora, o que tem que ser modificado são os conceitos, a cultura, a forma como as pessoas vêem o negro. Será que somente a distribuição de cotas corrige as injustiças? Não estaria aí o próprio governo, ou as instituições, praticando a discriminação racial? Por que tem que reservar cotas para o negro? Ele é diferente do branco? Nesse caso, reservar não significa separar, isolar, ou melhor, discriminar? O negro tem conseguido uma conquista de espaço de forma avassaladora pela sua própria competência e luta.
Cabe, porém, um raciocínio diferente na abordagem que Valmir Costa faz sobre a mulher. Aqui, se ela luta por seu espaço, o faz de forma pejorativa, pois o próprio autor reconhece que a revista Nova, que é feminista, a trata como um objeto de prazer do homem, um ser relegado ao segundo plano. Se o negro e o gay lutam para serem reconhecidos, a mulher que Costa analisa é liberal, revolucionária, mas as suas conquistas não lhe trazem um espaço digno, uma identidade decente.
Os textos didaticamente possuem uma boa estrutura, são construídos de uma maneira que torna a leitura de fácil compreensão. Ressalto, entretanto, alguns erros gramaticais em Pacheco que chegam a comprometer a qualidade do trabalho, notadamente o emprego de vírgulas. Por outro lado, a arrumação do seu texto merece um comentário, pois é bastante didático ao descrever a conquista e luta do espaço pelo negro nos vários setores da sociedade, como literatura, teatro, imprensa, rádio, televisão e na revista Raça Brasil. As formas como os autores abordam os temas são consistentes, pois eles discorrem uma série de argumentos e fatos que passam credibilidade ao trabalho. Existe um bom embasamento nas teses, uma retórica forte, com detalhamento nos questionamentos e nas análises que fazem.
Os autores não assumem o que é certo ou o que está errado nas discussões, mas analisam de forma clara e objetiva os três elementos discutidos, inclusive condenando os métodos utilizados pelas fontes de suas pesquisas, como é o fato da Revista Nova, ao passar a receita para a sua leitora quando acontece “a impotência do homem na hora H”. Os trabalhos convencem porque eles apontam as falhas, analisam as situações favoráveis e desfavoráveis com relação à conquista de espaço das três classes.
Existe coerência e coesão na narrativa dos trabalhos apresentados. São bem escritos, apresentam clareza nas palavras, frases fortes e precisas, informações confiáveis e de conhecimentos notórios e acessíveis para a leitura. Mulher Nova, Mulher Sexy: A mulher que não existe pode não parecer um texto elegante, pois trata a questão da mulher de uma forma escancarada, de uma mulher fútil, trazendo uma linguagem de revista voltada para mulheres de baixo nível cultural. Mas a narrativa de Costa torna-se mais importante ainda porque consegue separar tudo isso.
Por fim, são três temas polêmicos, inesgotáveis e que suscitam muitos tabus e resistências. Percebe-se que muita coisa ainda precisa ser feita, mas, conforme o relato histórico dos próprios autores, o avançar dos dias tem colaborado para a inserção do negro, da mulher e do gay na sociedade. As abordagens sobre os três elementos são fundamentais, mas é preciso mais discussão e entender como a sociedade tem recebido a conquista desses espaços por parte dessas classes.
Salvador-Ba., abril/2003
Evandro Matos
Aluno do 4º semestre de Jornalismo da Faculdade Dois de Julho