Adoro Riachão

Por Helena
Publicada em 19 de May de 2005 às 18h18

Eu nasci em Riachão do Jacuípe dia 15 de julho de 1972. Era sábado, meu dia preferido da semana até hoje. Dr não sei bem o nome teve que sair apressado de um casamento onde estava sendo o padrinho da noiva, todo bonitão de terno e gravata para fazer o parto da minha mãe. Quando ele me pegou no colo, conta mamãe que ele me ergueu e disse "Essa veio ao mundo em grande estilo!". Não sei ao certo o que ele previa com isso, mas de qualquer forma, pelo fato de eu ser uma pessoa feliz, devo reiterar que vivo em grande estilo!
Um dia meus pais deixaram a cidadezinha mais cuti-cuti onde já pisei (Riachão do Jacuípe, claro!) para se aventurar nas lavouras de café do Paraná. Meu maior lamento, já que não tinha noção de muita coisa no auge dos meus 5 anos, foi deixar minha "pontinha lisada" - um cobertorzinho que eu arrastava enquanto chupava o polegar direito, coisa que faço até hoje quando estou meio carente (apesar de ser uma pessoa feliz). Sabe como é: mulher, mais de 30, TPM...
Depois de 2 anos no Paraná, mudamos para São Paulo e só voltei à Riachão quando tinha 9 anos, levada por 3 primos solteirões que haviam prometido me carregar na próxima aventura que fizessem rumo à terrinha.
Foi um alvoroço dentro do meu pequeno coração quando soube que minha mãe permitiria a viagem, desde que a professora Ignês também o fizesse, uma vez que ainda era começo de novembro e o ano letivo se estenderia até meados de dezembro. Não sei até que ponto Papai Noel se adiantou, só sei que na mesma semana eu estava no busão à caminho da Bahia com meus três primos e suas respectivas namoradas: mascotinho!
Essa viagem é uma das melhores lembranças que tenho da minha infância. Além de rever toda a parentada, andado a cavalo, comido caju e quixaba trepada na árvore, fui muito paparicada por todos. No dia em que eu iria partir minha avó aos prantos disse-me que já estava velha e que jamais me veria de novo. Eu disse que se ela "agüentasse viva" mais alguns anos (o que era 20 anos para alguém que já vivera 78, afinal?) eu voltaria para vê-la com meus filhos à tiracolo!
Os anos se passaram depressa, analisando friamente a questão, e enquanto isso trocávamos cartas através das quais nos mantínhamos informadas uma sobre a outra.
Conheci meu primeiro namorado, fiquei noiva, casei, tive o primeiro filho, nasceu o primeiro dente, ele dera seus primeiros passos e, por carta, vovó sabia de tudo. Eu era funcionária pública e resolvi fazer faculdade, foi quando veio o segundo filho e eu esmoreci um pouco. Cuidar de duas crianças, trabalhar fora e estudar é missão para mulher-maravilha. Eu até fui por uns tempos mas vi que não valia a pena privar meus filhos da minha presença. Parei com a faculdade pela metade, saí do trabalho e fui ser o que toda canceriana sempre sonhou como diz o horóscopo semanal: dona de casa.
Foi aí que veio o terceiro filho e, como rapadura é doce mas não é mole, voltei à atividade profissional para ajudar nas despesas. Minha sorte é que sempre trabalhei perto de casa, assim os meninos tinham-me por perto. Apesar do pouco tempo que eu dedicava eles, sempre fiz questão de manter a qualidade dos nossos momentos juntos.
E minha avó aí, esperando por mim. O problema era que eu nunca conseguia reunir a família toda para viajarmos. Quando eu estava de férias, o marido não. Se nossas férias batiam, os meninos estavam estudado, e assim o tempo foi passando. Assim mesmo, minha avó sempre esteve presente através das cartas que escrevia com as mãos dos outros, já que nunca freqüentara escola.
Passada a crise dos 30, ficou em mim aquela sensação de vazio por nunca ter cumprido o que prometi à vovó. Por isso, inadiavelmente, planejei que de 2003 não passaria. E assim aconteceu: peguei férias, juntei as crianças, mesmo em período escolar e rumei pra Bahia, deixando o marido para traz e agradecendo a Deus por não tê-lo incluído na promessa.
Avisamos à vovó que estávamos a caminho para não correr o risco dela ter um piripaque quando nos visse. A viagem foi angustiante. De São Paulo para Salvador foi pa-pum, duas horas e meia apenas. Mas chegando lá, entre o taxi e o ônibus foram 5 horas que não pareciam passar. O motorista já estava prestes a me abandonar no meio da estrada de tanto que eu azucrinei o pobre, parecia o amigo do Shrek "Chegou? Já chegou? Tá chegando?".
Ainda ouço a voz dela perguntando "Helena, é tu mesmo minha filha?" enquanto caminhava do fundo da sala, com sua bengala improvisada de "pé de pau", vindo ao meu encontro. Vale dizer que quando viemos embora ela já havia abandonado o amparo e só faltava correr a brincar de pega-pega com os meninos.
Tanto para mim quanto para eles foram 15 dias inesquecíveis. Apesar da seca, eles pulavam nas poças d'águas dos açudes e se esbaldavam, mesmo aos gritos de alguém: "Menino, tu não tá acostumado com isso não, vai ficar doente!". Que doente nada, eles voltaram com a pele bonita, bronzeada, rostos corados. Gabrielzinho, meu caçula, que sempre foi enjoado para comer, comeu até carne de carneiro! Desfilamos por todas aquelas ruas, fomos ao hospital tirar os pontos no tornozelo que o Fernando levou daqui um dia antes de viajar. Revi meus tios, meus primos, amigos, chegados, conhecidos. Conhecemos um monte de parentes de quem eu nem sabia da existência. Visitamos a igreja, desfrutamos muitas tardes na praça comendo o acarajé delicioso daquele moço (como é mesmo o nome dele?), passamos embaixo do pé de barriguda cuja história minha mãe contou mais tarde quando viu a foto, fomos à feira, à prefeitura, rimos com o pânico das pessoas numa tarde em que caíram generosos pingos de chuva - Ricardo, o meu mais velho atribuiu esse fenômeno á falta de costume com a chuva e eu concordei. Também foi ele quem montou uma árvore genealógica da nossa família com base nas informações dos mais velhos - compramos esteiras e sacolas de palhas, badogues e porquinhos de barro (para guardar moedas). Trouxe uma muda de pé de mandacarú e plantei aqui num vaso, perto de umas das mais de 30 cabeças-de-frade, cuja maioria distribuí para minhas amigas daqui. Discuti sobre a política local, ouvi o "Arrocha", todo santo-dia na Rádio Jacuípe. Para não dizerem que não experimentamos de tudo que tem aí, ainda passei uma noite na pousada que fica em frente à praça, com os meninos e o Fernando (sangue doce)que trouxe consigo uma picada do mosquito da dengue, o que fez eu passar 4 dias no hospital ao lado dele quando chegamos aqui e, acreditem: eu ainda estava em estado de graça, foi uma festa.
Vovó ficou aí com os olhos cheios d'água mas eu garanti que ela ainda vai conhecer meus netinhos. Ela disse "deixe de ser besta que não tem cabimento eu viver pra sempre, mereço descansar agora!"
Sei não, mas no próximo dia 11 ela vai completar 100 anos...
Preciso dizer mais alguma coisa sobre minha paixão por Riachão do Jacuípe e as pessoas daí???

Esqueci de mencionar que atualmente sou professora, me separei há 2 anos, estou quase casando de novo, me formo em Letras mês que vem, terminei meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) ontem e vou prestar vestibular para Informática com Gestão em Negócios mês que vem. Uhuuuuuuuuuuu!!!

Re: Adoro Riachão (Pontos: 1)
por theobaiano (madeinbrasilband@bellsouth.net) em Thursday, May 19 @ 21:00:07 BRT
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hih dona helena tenho uma historia parecidacom a sua hihi, mas nao tenho tmepo de escrver tudo isos.........mas gostei, de repente tu conhecida minha....abracos helena



Re: Adoro Riachão (Pontos: 1)
por Van em Friday, May 20 @ 11:30:03 BRT
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Acredito que o melhor do ser humano.. é quando ele evolui sem esquecer de suas raízes...
Parabéns pela linda terra natal e pelo amor que vc tem por ela !!!!
Bjos